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Por via da poesia

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Por Laura Rossetti (*)

O moçambicano Mia Couto, um dos mais importantes escritores em língua portuguesa da atualidade, participou da abertura do Flitabira na última quarta-feira, dia 27 de outubro, em um bate-papo virtual com o jornalista Afonso Borges. Durante a conversa, transmitida às 19h pelo YouTube do festival, o autor abordou, entre outros assuntos, seu mais recente livro publicado, “O Mapeador de Ausências”, a obra de Carlos Drummond de Andrade e a relação entre Itabira e Beira, cidade natal de Mia Couto.

Afonso deu início à conversa destacando a presença recorrente de Itabira na obra do poeta itabirano. “Curiosamente, Drummond, mesmo tendo saído de Itabira aos 14 anos, continuou escrevendo sobre a cidade por toda a vida”, diz. Para Mia, Itabira possui muitas semelhanças com Beira, cidade onde nasceu. Segundo ele, as duas, de alguma forma, sentem-se deslocadas do resto do mundo, muitas vezes impotentes diante da imensa realidade – algo que o poeta itabirano já havia expressado em seu livro “Sentimento do Mundo”, publicado em 1940.

Mia Couto afirma que sempre admirou a obra de Drummond, que teve grande influência em sua própria escrita, assim como João Cabral de Melo Neto, Jorge Amado e outros escritores brasileiros. “Drummond aconteceu na minha vida como alguém que logo se coloca como um mestre, porque (…) ele faz de um grão de areia todo o universo. Tudo isso é alguma coisa que me perseguiu toda a minha vida”, afirma. O autor completa que Drummond “quando faz prosa, não se rende à prosa. Ele está ali como um poeta”.

O processo criativo de Mia também passa, essencialmente, por uma perspectiva poética. “Qualquer coisa, para que se torne apreensível do ponto de vista de uma abordagem literária – alguma coisa que se pode transformar em romance, em conto ou crônica – tem que acontecer por via da poesia”, diz. Durante a conversa, o autor leu alguns poemas de sua autoria retirados dos livros “Vagas e Lumes”, de 2014, e “Idades Cidades Divindades”, de 2007, ambos publicados pela editora Caminho.

Mia falou ainda sobre seu mais recente livro, “O Mapeador de Ausências”, publicado em 2020 pela Companhia das Letras. A história se passa no Moçambique pré e pós-independência. “Começou para ser uma revisita ao meu lugar de infância. Essa visita é contextualizada no final do tempo colonial, quando a presença portuguesa começa visiivelmente a desmoronar (…) À medida que o livro ia tomando forma, eu percebi que estava migrando para uma outra história”, afirma o autor. A mudança na narrativa ocorreu quando ele se deu conta de que estava escrevendo sobre seu pai, um homem gentil e delicado que publicou 7 livros ao longo de sua vida. “A vida dele era feita em poesia, ele vivia nos livros, em outro universo”, conta.

Além de escritor, Mia Couto é biólogo, jornalista e professor. Já publicou mais de 30 livros de gêneros variados, como poesia, romance, contos, crônicas, entre outros. O autor recebeu uma série de prêmios literários, entre eles o Camões, em 2013, o mais prestigiado da língua portuguesa, e o Prêmio Internacional Neustadt de Literatura, em 2014.

Acesse a gravação completa da conversa, que contou com tradução em Libras, no YouTube do Fitabira.

*Estagiária sob a supervisão da jornalista Jozane Faleiro

 

Frases

“Poesia é a minha casa. Eu sou sempre um poeta. Mesmo quando escrevo prosa, eu sinto que a minha casa é essa que eu invento pra mim próprio: a poesia”. – Mia Couto

“A poesia é quase uma forma de pensar, uma forma de olhar o mundo e que faz essa costura que nós rompemos entre o sentir e o pensar” – Mia Couto

“A Beira era um lugar que nos parecia, ao mesmo tempo, pequeno e infinito” – Mia Couto