
E agora, José? O que resta? O que fazer?
Esta indagação é o tema do poema “José”, de Carlos Drummond de Andrade, que norteia a palestra entre Márcia Tiburi e Wagner Schwartz. Os versos do poeta itabirano colocam um questionamento muito comum na época em que foi escrito e que pode ser trazido para os dias atuais: para que serve a literatura escrita em tempos de miséria e destruição?
Muito se pode relacionar entre o poema e as vivências de Márcia e Wagner. Ambos os artistas sofreram ameaças de morte após exporem seus trabalhos. A escritora deixou o Brasil em 2019, enquanto o coreógrafo buscou exílio em 2017. Suas imigrações forçadas foram a solução para uma vida sob o medo constante de intimidações que sofreram. Dessa forma, a palestra, a ser realizada às 15h30 do dia 4/11, sábado, reflete sobre o que fazer quando a festa acaba, a luz se acaba, o povo some e a noite esfria – parafraseando o poema que serve como fio condutor da mesa de debates.
Relacionando o trabalho dos artistas com o tema do III Flitabira, “Arte, Literatura e Correspondências”, a produção de Márcia Tiburi é de grande valia – isso porque, ao lado de Jean Willys, político brasileiro que também buscou exílio fora do Brasil, Márcia escreveu o livro “O que não se pode dizer”. A obra é uma publicação da editora Civilização Brasileira e reflete, ao longo de cartas trocadas entre os dois amigos, as ameaças que os levaram ao exílio e as estranhezas de se viver num país estrangeiro.
Leia, abaixo, o poema “José”, base para a palestra de Márcia Tiburi e Wagner Schwartz:
José
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?
MÁRCIA TIBURI
Professora na Universidade Paris 8, na França, Marcia Tiburi é autora dos livros “Filosofia prática, ética, vida cotidiana, vida virtual” (Record, 2014), “Feminismo em comum” (Rosa dos Tempos, 2018), “Complexo de vira-lata – Análise da humilhação brasileira” (Civilização Brasileira, 2021), entre diversos outros títulos. Graduada em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1991) e em Artes Plásticas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1996), é mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1994), doutora em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1999), com ênfase em Filosofia Contemporânea e fez pós-doutorado em Artes pelo Instituto de Artes da Unicamp.
WAGNER SCHWARTZ
Wagner Schwartz nasceu em Volta Redonda, Rio de Janeiro. Formado em Letras pela Universidade Federal de Uberlândia, participou de grupos de pesquisa e experimentação coreográfica na América do Sul e na Europa. Recebeu o prêmio APCA (2012) de “Melhor projeto artístico” por Piranha, e foi selecionado pelo programa Rumos Itaú Cultural Dança (2000, 2003, 2009 e 2014). Recentemente, foi residente da Cité Internationale des Arts, em Paris, premiado pelo programa Fundação Daniel e Nina Carasso. Pela Nós, publicou Nunca juntos mas ao mesmo tempo. Vive em Paris.
SOBRE O FLITABIRA
Criado pelo jornalista Afonso Borges – que é também o idealizador do Festival Literário de Araxá (Fliaraxá) e do Sempre um Papo –, o Flitabira realizará sua terceira edição entre os dias 31 outubro e 5 de novembro de 2023, celebrando 121 anos de nascimento do poeta Carlos Drummond de Andrade. As atividades acontecem tanto de forma presencial, na Praça do Centenário, quanto on-line, pelo canal no YouTube do Festival.
O Flitabira tem patrocínio do Instituto Cultural Vale, via Lei de Incentivo à Cultura, a Lei Rouanet, do Ministério da Cultura, com o apoio da Prefeitura de Itabira e União Brasileira de Escritores – UBE.
INSTITUTO CULTURAL VALE
O Instituto Cultural Vale parte do princípio de que viver a cultura possibilita às pessoas ampliarem sua visão de mundo e criarem novas perspectivas de futuro. Tem importante papel na transformação social e busca democratizar o acesso, fomentar a arte, a cultura, o conhecimento e a difusão de diversas expressões artísticas do nosso País, ao mesmo tempo em que contribui para o fortalecimento da economia criativa. São mais de 300 projetos criados, apoiados ou patrocinados em 24 estados e no Distrito Federal em execução em 2023. Dentre eles, uma rede de espaços culturais próprios, patrocinados via Lei Rouanet, com visitação gratuita, identidade e vocação únicas: Memorial Minas Gerais Vale (MG), Museu Vale (ES), Centro Cultural Vale Maranhão (MA) e Casa da Cultura de Canaã dos Carajás (PA). Onde tem Cultura, a Vale está. Visite o site do Instituto Cultural Vale: institutoculturalvale.org.
SERVIÇO:
III Flitabira – Festival Literário Internacional de Itabira
De 31 de outubro a 5 de novembro
Local: Praça do Centenário (Rua Maj. Lage, 121 – Centro Histórico)
Informações: www.flitabira.com.br
Informações para a imprensa: info@flitabira.com.br