
“A rosa do povo”, livro de Drummond publicado durante a Segunda Guerra Mundial, aborda as questões que pairavam no ar por causa do conflito. O Poeta se mostra reflexivo e por vezes pessimista, olhando para o passado e questionando o momento em que vivia. A realidade possui várias faces e é vista de várias perspectivas, o que nunca gera uma opinião, e o fluxo desordenado da vida não permite certezas.
Levando isso em consideração, Andréa Pachá, João Anzanello Carrascoza e Sérgio Abranches se unem para tratar a abrangência das questões sócio-políticas na poesia e na literatura. Para ilustrar a palestra, que será realizada no dia 3/11, sexta-feira, às 20h, segue um poema retirado do livro “A rosa do povo”:
A flor e a nâusea
Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
ANDRÉA PACHÁ
Escritora, desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Mestra em Direitos Humanos e Saúde Pública pela Fiocruz. Professora da pós-graduação de Direito de Família e Sucessões da PUC/RJ e da Escola Nacional de Formação de Magistrados. Foi Conselheira do CNJ no biênio 2007/2009, responsável pela criação e implantação do Cadastro Nacional de Adoção e pela implantação das Varas de Violência contra a Mulher no país. Autora de “A vida não é justa” (2012), adaptado para a TV no programa Fantástico, “Segredo de Justiça” (2014) e “Velhos são os outros” (2018), finalista do Prêmio Jabuti. Coautora de “sobre feminismos” , da ed. Agir. Integra a Academia Petropolitana de Letras e a Academia Líbano Brasileira de Letras, Artes e Ciências.
JOÃO CARRASCOZA
João Anzanello Carrascoza é autor dos romances “O céu implacável”, “Inventário do azul” e “Trilogia do adeus”, além de livros de contos como “Aquela água toda” e “Tramas de meninos”. Suas histórias foram traduzidas para o bengali, croata, espanhol, francês, inglês, italiano, sueco e tâmil. Recebeu três vezes o prêmio Jabuti, quatro vezes o prêmio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, três vezes o prêmio da Fundação Biblioteca Nacional, o prêmio da APCA, da Cátedra Unesco e o Candango, além dos internacionais Radio France e White Ravens.
SÉRGIO ABRANCHES
O sociólogo, cientista político e escritor Sérgio Abranches nasceu em Curvelo, em 1949. É bacharel e mestre em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB), mestre e doutor (PhD) em Ciência Política pela Universidade Cornell (EUA). Escreveu os ensaios “No tempo dos governantes incidentais” (Companhia das Letras, 2020), “Presidencialismo de coalizão — Raízes e evolução do modelo político brasileiro” (Companhia das Letras, 2018) – Finalista do Prêmio Jabuti na categoria Ensaio/Humanidades, e “A era do imprevisto — A grande transição do século XXI” (Companhia das Letras, 2017) – Vencedor do Prêmio Literário Nacional PEN Clube do Brasil em 2018. Também é autor dos romances “O pelo negro do medo” (Record, 2012), “Que mistério tem Clarice” (Biblioteca Azul/Globolivros, 2014) e “O intérprete de borboletas” (Record, 2022).
SOBRE O FLITABIRA
Criado pelo jornalista Afonso Borges – que é também o idealizador do Festival Literário de Araxá (Fliaraxá) e do Sempre um Papo –, o Flitabira realizará sua terceira edição entre os dias 31 outubro e 5 de novembro de 2023, celebrando 121 anos de nascimento do poeta Carlos Drummond de Andrade. As atividades acontecem tanto de forma presencial, na Praça do Centenário, quanto on-line, pelo canal no YouTube do Festival.
O Flitabira tem patrocínio do Instituto Cultural Vale, via Lei de Incentivo à Cultura, a Lei Rouanet, do Ministério da Cultura, com o apoio da Prefeitura de Itabira e União Brasileira de Escritores – UBE.
INSTITUTO CULTURAL VALE
O Instituto Cultural Vale parte do princípio de que viver a cultura possibilita às pessoas ampliarem sua visão de mundo e criarem novas perspectivas de futuro. Tem importante papel na transformação social e busca democratizar o acesso, fomentar a arte, a cultura, o conhecimento e a difusão de diversas expressões artísticas do nosso País, ao mesmo tempo em que contribui para o fortalecimento da economia criativa. São mais de 300 projetos criados, apoiados ou patrocinados em 24 estados e no Distrito Federal em execução em 2023. Dentre eles, uma rede de espaços culturais próprios, patrocinados via Lei Rouanet, com visitação gratuita, identidade e vocação únicas: Memorial Minas Gerais Vale (MG), Museu Vale (ES), Centro Cultural Vale Maranhão (MA) e Casa da Cultura de Canaã dos Carajás (PA). Onde tem Cultura, a Vale está. Visite o site do Instituto Cultural Vale: institutoculturalvale.org.
SERVIÇO:
III Flitabira – Festival Literário Internacional de Itabira
De 31 de outubro a 5 de novembro
Local: Praça do Centenário (Rua Maj. Lage, 121 – Centro Histórico)
Informações: www.flitabira.com.br
Informações para a imprensa: info@flitabira.com.br