
Mediada por Gloria Maciel, a mesa falou da escrita a quatro mãos, utopia e da urgência de imaginar outros mundos a partir da ancestralidade negra
Por Anna Lara Resende
Por muito tempo, as histórias sobre o futuro deixaram de fora pessoas como elas, e é para mudar isso que as irmãs Pétala e Isa Souza escrevem. Na tarde deste sábado (31), as autoras do projeto Afrofuturas levaram ao Teatro da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade a ideia que atravessa o trabalho das duas, a de um “repovoamento do imaginário”, durante a mesa “Futuros Ancestrais”, mediada pela atriz e criadora de conteúdo Glória Maciel. O encontro fez parte do terceiro dia de programação nacional do 6º Festival Literário Internacional de Itabira (Flitabira), realizado de 29 de outubro a 1º de novembro na cidade natal de Carlos Drummond de Andrade. Ao longo da conversa, as irmãs falaram da escrita a quatro mãos, de afrofuturismo e ancestralidade, de literatura para crianças e da necessidade de seguir imaginando futuros num tempo em que o pessimismo parece sempre mais fácil.
A Vale apresenta a 6ª edição do Flitabira, via Lei Rouanet do Ministério da Cultura, com o apoio da Prefeitura de Itabira, da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade e do Itaú. Todas as atividades são gratuitas, acessíveis, transmitidas online pelo YouTube e estão alinhadas com os princípios do ESG (Ambiental, Social e Governança) e da ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável) da ONU (Organização das Nações Unidas). Os curadores desta edição são Sérgio Abranches e Calila das Mercês, ao lado do presidente do Festival, Afonso Borges.
Há doze anos, as irmãs conduzem o Afrofuturas, projeto que parte da decolonização do imaginário para pensar a literatura e a leitura. Discípulas declaradas da escritora norte-americana Octavia Butler, uma das grandes vozes negras da ficção científica, elas também mantêm clubes de leitura nos quais discutem raça, gênero e classe a partir da ficção. Em 2020, venceram o 1º Prêmio Machado DarkSide de Literatura e, desde então, publicaram contos em antologias como Raízes do Amanhã e Vozes Negras.O primeiro livro inteiramente das duas é Gente Também É Semente, lançado pela Pallas com ilustrações de Isabela Santos. A história acompanha Niila, uma menina que vive num tempo em que as máquinas ocupam o centro da vida e a comida começa a faltar, e que, ao plantar sementes no quintal, abre caminho para um mundo novo. A conversa foi conduzida por Glória Maciel, atriz e criadora de conteúdo baiana conhecida pelos vídeos em que mistura poesia, relacionamentos e brasilidades.
Glória começou pelo ofício e quis saber como funciona escrever a quatro mãos. Pétala, a irmã mais velha, respondeu voltando à infância, quando o apego às letras já era forte o bastante para que, aos 9 anos, escrevesse sua primeira história. Anos depois, na faculdade, encontrou a ficção científica e aos poucos foi trazendo a irmã para esse universo, num caminho que daria origem ao Afrofuturas. Como, desde os tempos do blog, uma sempre editou o texto da outra, escrever um livro em dupla acabou sendo apenas o passo seguinte de uma parceria antiga. Isa contou a mesma história pelo outro lado: foi Pétala quem colocou os livros na sua vida e a fez se apaixonar pela leitura, e foi também pelas mãos dela que deixou a fantasia, sua preferida, para chegar à ficção científica. Hoje, explicou, Pétala costuma lançar as ideias, enquanto ela chega depois para amarrar, corrigir e acrescentar. O que move as duas, resumiu, é o desejo de promover um “repovoamento do imaginário”, ocupando com outras presenças as histórias sobre o futuro que, por muito tempo, deixaram pessoas como elas de fora.
Essa ideia ganhou corpo quando a mediadora perguntou o que a ancestralidade permite imaginar que a noção convencional de progresso não permite. Pétala disse buscar uma literatura capaz de romper com aquilo que costuma ser apresentado como o único futuro possível e, para mostrar que essa é também uma questão política, lembrou das eleições deste mês e das disputas de narrativa, numa reflexão que ecoou a mesa de Rita Von Hunty, na abertura do festival, dedicada justamente a perguntar quem narra, por que narra e como narra. Foi nesse ponto que ela apresentou Gente Também É Semente, em que Niila tenta construir uma nova forma de viver para si e para toda a sua comunidade. Por trás da história está uma convicção das autoras: as crianças costumam ser tratadas como o futuro, mas são também, e sobretudo, o presente. A imagem da semente, aliás, guarda um parentesco com a obra de Octavia Butler, que em A Parábola do Semeador imaginou uma jovem fundando, num mundo em colapso, uma comunidade chamada Semente da Terra.
Daí a conversa seguiu naturalmente para a literatura infantil e para a pergunta de como escrever para crianças sem subestimá-las. Isa contou que escreve pensando nas crianças que as duas foram, e que o livro acabou sendo também uma forma de elaborar situações da própria infância e de fazer as pazes com o passado, o mesmo repovoamento do imaginário de que havia falado antes. Como mulheres negras, disse, foi a primeira vez que se viram no lugar de protagonistas. A fala diz respeito a algo que vai muito além dos livros infantis, porque, durante séculos, o racismo estrutural, aquele que se entranha nas instituições e nos hábitos sem precisar ser declarado, reservou aos corpos negros as margens das histórias, como personagens secundários, como estereótipos ou simplesmente como ausência. Crescer sem se reconhecer nas páginas é uma forma de apagamento, e é contra ele que o trabalho das irmãs se coloca, para que as crianças negras de hoje encontrem nos livros aquilo que elas próprias não encontraram.
Falar de futuro, para as duas, também é enfrentar uma dificuldade do nosso tempo: a de que parece mais fácil imaginar a destruição do que novas formas de viver. A inquietação é conhecida do pensamento contemporâneo e costuma ser resumida na frase, atribuída ao teórico Fredric Jameson e popularizada pelo britânico Mark Fisher, de que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Para Isa, isso tem a ver com a tendência de enxergar o pessimismo como um caminho mais fácil do que a esperança. Pétala vê no ritmo do presente parte da explicação: com tanta informação, tantos problemas e tanta pressa, cada vez menos pessoas podem se dar ao luxo de pensar em utopias. Nem por isso, defendeu, é possível abrir mão delas, já que imaginar o futuro é também uma forma de despertar para os mecanismos de dominação que operam hoje. Glória Maciel aproximou essa ideia do tempo espiralar, conceito de Leda Maria Martins, que havia passado pelo mesmo palco na véspera. Numa concepção em que o tempo não corre em linha reta, e em que passado, presente e futuro se curvam e se reencontram, olhar para a ancestralidade não significa voltar atrás, mas buscar ali as sementes do que ainda está por vir.
Já perto do fim, Glória levantou um dilema frequente na literatura para crianças, o de saber se a necessidade de ensinar acaba limitando a liberdade de criar. Isa respondeu que a reflexão e o debate provocados pela arte pertencem ao leitor, a quem cabe interpretar e questionar a intenção de quem escreveu, de modo que um livro não precisa se apresentar como lição para dizer alguma coisa. “Histórias passam mensagens por si mesmas”, afirmou, e por isso a escrita pode, e deve, ser livre de um compromisso didático que a engesse. “A arte é múltipla, não pode ser uma coisa só”, concluiu.
Assista a mesa abaixo:
Serviço
6.º Flitabira – Festival Literário Internacional de Itabira
Tema: “A Máquina do Mundo em Nós – 75 anos de Claro Enigma”
Data: 29 de outubro a 1º de novembro de 2026
Local: Teatro da FCCDA e entorno – Itabira (MG)
Programação: mesas literárias, palestras, encontros com escritores, lançamentos, Central de Autógrafos, Livraria do Flitabira, Flitabira da Gente, Flitabira nas Escolas, Prêmio de Redação e Desenho, exposição “Autorretratos de Drummond” e programação artística
Entrada: gratuita em todas as atividades
Acessibilidade: Libras e autodescrição
Transmissão: ao vivo pelo YouTube @flitabira
Patrocínio master: Vale, via Lei Rouanet – Ministério da Cultura
Apoio: Prefeitura de Itabira, Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade e Itaú