
Com mediação de Calila das Mercês, a mesa “Corpos Narrados” foi do racismo científico do século 19 às manchetes de hoje e à eleição histórica para a presidência do Brasil
Quem conta a história de um corpo, por que conta e de que maneira: foi com essas perguntas que a crítica cultural Rita Von Hunty abriu, na noite desta quinta-feira (29), a programação nacional do 6º Festival Literário Internacional de Itabira, o Flitabira, realizado de 29 de outubro a 1º de novembro na cidade natal de Carlos Drummond de Andrade. Mediada pela escritora e curadora Calila das Mercês, a mesa “Corpos Narrados” lotou o Teatro da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade. A conversa mostrou como as narrativas sobre gênero, raça e classe são construídas para sustentar o poder e por que desmontá-las é, hoje, uma tarefa política.
A Vale apresenta a 6ª edição do Flitabira, via Lei Rouanet do Ministério da Cultura, com o apoio da Prefeitura de Itabira, da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade e do Itaú. Todas as atividades são gratuitas, acessíveis, transmitidas online pelo YouTube e estão alinhadas com os princípios do ESG (Ambiental, Social e Governança) e da ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável) da ONU (Organização das Nações Unidas). Os curadores desta edição são Sérgio Abranches e Calila das Mercês, ao lado do presidente do Festival, Afonso Borges.
Não por acaso, a mesa ecoava o título do livro mais recente da convidada. Em Formas de Narrar um Corpo (Planeta), Rita Von Hunty cruza sociologia, psicanálise, literatura e política para examinar como gênero, sexualidade e linguagem se entrelaçam com o poder e como certos corpos são autorizados a falar enquanto outros são silenciados. Crítica cultural, educadora e colunista, ela construiu uma trajetória de formação e debate sobre cultura, política e direitos humanos que passa por universidades, escolas e movimentos sociais no Brasil e no exterior. Do outro lado da conversa, Calila das Mercês, poeta, pesquisadora e jornalista, doutora em Literatura pela UnB e com pós-doutorado no IEA-USP, sob orientação de Conceição Evaristo, somou o olhar de quem também investiga, na própria escrita, as histórias que o país prefere não contar.
Rita começou situando o próprio palco: ali estavam duas pessoas LGBT. Quem pertence a uma minoria social, explicou, vive medido pela “norma mítica”, conceito da escritora norte-americana Audre Lorde para o padrão imaginário do homem branco, heterossexual, jovem e com dinheiro, que serve de régua para todos os outros corpos. Para mostrar como essa régua é fabricada, ela recorreu a um caso exemplar de racismo científico. Em 1851, o médico estadunidense Samuel A. Cartwright cunhou o termo “drapetomania” para descrever como doença mental o desejo de pessoas escravizadas de fugir. Ridicularizada por médicos dos estados do Norte, a teoria funcionou mesmo assim como ferramenta de controle no Sul escravista.
Narrativas como essa, sustentou, nascem para preservar o poder de elites que historicamente controlam corpos e impõem uma “monocultura” de modos de existir. Têm força suficiente para transformar maiorias em “minorias”, uma lógica que o Brasil conhece bem: pretos e pardos somam 55,5% da população, segundo dados do Censo mais recente do IBGE. O caminho, defendeu, é desfazer essas histórias perguntando sempre quem narra, por que narra e como narra. Os exemplos estão nas manchetes. Quando uma pessoa negra e pobre é apreendida com drogas, vira “traficante”. Quando o detido é um jovem branco e rico, vira “jovem estudante de medicina”. “Ler o mundo antes de ler a palavra”, provocou Rita, ecoando Paulo Freire.
Dá pra ser estúpido e dá pra ser mau. Ingênuo não dá mais
O presente atravessou a conversa. A mesa aconteceu quatro dias depois do segundo turno em que Lula, que havia terminado o primeiro em segundo lugar, virou a disputa e foi reeleito com 51,79% dos votos válidos. Rita leu a virada como uma vitória da democracia e da capacidade de pensar no coletivo. “O impossível é questão de organização”, afirmou.
Calila trouxe para a roda “Nódoa”, seu romance de estreia, publicado pela Companhia das Letras. O livro também se debruça sobre as minorias brasileiras e passa por temas como imigração e refúgio, revelando um país imenso e culturalmente diverso que boa parte dos brasileiros não conhece. A autora apontou ainda os “delírios coloniais” que sobrevivem até hoje em conceitos que considera injustos e desonestos, como o da meritocracia.
Na reta final, as duas voltaram à eleição para criticar políticos que espalham mentiras e deep fakes nas redes sociais para fabricar narrativas, favorecidos pelo alcance que as big techs lhes garantem e inflados por seguidores comprados. Contra a monocultura, defenderam a pluralidade, no Brasil e no mundo, e a mobilização social. Direitos conquistados pela luta, lembraram, precisam ser defendidos todos os dias, e outros ainda estão por conquistar. Coube a Rita a frase que fechou a noite e resumiu a mesa:
Numa relação assimétrica de poder, não existe neutralidade
Do médico que transformou a fuga em doença à manchete que separa o “traficante” do “jovem estudante de medicina”, a mesa percorreu um mesmo mecanismo: a palavra que decide como um corpo será visto antes mesmo de ele chegar. Para Rita e Calila, desmontá-lo começa pela desconfiança diante de toda história que se apresenta como natural e pela abertura de espaço para que outros corpos narrem a si mesmos. Ao fim da conversa, as duas foram aplaudidas de pé pelo público.
Serviço
6.º Flitabira – Festival Literário Internacional de Itabira
Tema: “A Máquina do Mundo em Nós – 75 anos de Claro Enigma”
Data: 29 de outubro a 1º de novembro de 2026
Local: Teatro da FCCDA e entorno – Itabira (MG)
Programação: mesas literárias, palestras, encontros com escritores, lançamentos, Central de Autógrafos, Livraria do Flitabira, Flitabira da Gente, Flitabira nas Escolas, Prêmio de Redação e Desenho, exposição “Autorretratos de Drummond” e programação artística
Entrada: gratuita em todas as atividades
Acessibilidade: Libras e autodescrição
Transmissão: ao vivo pelo YouTube @flitabira
Patrocínio master: Vale, via Lei Rouanet – Ministério da Cultura
Apoio: Prefeitura de Itabira, Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade e Itaú