
Por Letícia Finamore
Com introdução sobre a alienação histórica de povos indígenas e africanos, atividade do 6.º Flitabira desafiou a monocultura dos afetos e as violências estruturais
A programação “Outras Formas de Existir” levou ao palco do Teatro da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade um debate sobre ancestralidade, diversidade e relações humanas comunitárias. O encontro, que reuniu a escritora e ativista guarani Geni Núñez e a poeta moçambicana Énia Lipanga, contando com a mediação do autor Ale Santos, aconteceu às 18h desta sexta-feira, 30 de outubro, integrou a programação da sexta edição do Flitabira – Festival Literário Internacional de Itabira.
A Vale apresenta a sexta edição do Flitabira, via Lei Rouanet do Ministério da Cultura, com o apoio cultural da Prefeitura de Itabira, da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA) e do Itaú. Todas as atividades são gratuitas, acessíveis, transmitidas online pelo Youtube e estão alinhadas com os princípios do ESG (Ambiental, Social e Governança) e da ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável) da ONU (Organização das Nações Unidas).
Ale Santos, enquanto autor de ficção científica, propôs uma reflexão contundente sobre a forma como os colonizadores europeus enxergaram os povos indígenas e africanos durante os primeiros contatos. O escritor lembrou que filósofos e exploradores daquela época questionavam se esses povos seriam humanos, se compartilhavam da mesma linhagem divina ou se seriam, na verdade, alienígenas, entidades que não teriam sido tocadas pelo Deus cristão. Traçando um paralelo com obras XVII, o mediador destacou que a figura do “alienado” e do ser desumanizado nasce desses choques coloniais, questionando sobre o impacto devastador dessa suposta universalização europeia sobre outras experiências de vida.
Em resposta à fala introdutória de Ale, Geni Núñez desconstruiu a ideia de uma universalidade imposta, recorrendo à cosmogonia de seu povo para lembrar que todos os seres da natureza são vistos como pessoas, com diferentes formas de expressão no mundo. A escritora guarani teceu críticas à supremacia que busca estabelecer um grupo restrito como superior, tendo privilégios que legitimam a opressão dos demais sob a justificativa de um falso processo civilizatório. Núñez também se referiu a esse cenário como uma “monocultura” dos afetos e defendeu que a sobrevivência de mundos possíveis exige a rejeição de modelos coloniais de pensamento e a urgência de repensar a vida coletivamente. A autora trata de assuntos como esses em sua obra “Descolonizando afetos: Experimentações sobre outras formas de amar”, publicada pela Editora Planeta, em 2023.
Levando o debate até Moçambique, Énia Lipanga compartilhou sua experiência em um país onde a herança ancestral convive de perto com violências institucionais profundamente enraizadas. A escritora e ativista denunciou as dinâmicas de poder que silenciam as mulheres nas comunidades locais, recordando antigas regras estatais que puniam e excluíam meninas grávidas do ensino regular durante o dia. Ao mesmo tempo, Lipanga defendeu o questionamento de rituais culturais que violentam os corpos femininos, como o Kutchinga, prática de purificação que obriga viúvas a manter relações sexuais com familiares do falecido. “A emancipação”, conta a autora, “passa pela criação de espaços seguros de autocuidado e escuta entre as mulheres”.
Dentre seus tantos papéis, a escrita também atua como denúncia. O encontro mostrou que acolher a diversidade e romper a redoma do individualismo ocidental são caminhos indispensáveis para construir um futuro em que todas as formas de existir sejam verdadeiramente respeitadas. A sessão dialogou geografias e saberes para refletir sobre os modos de vida que sobrevivem à margem das narrativas hegemônicas. Indo além, Geni Núñez e Énia Lipanga fizeram um chamado à descolonização das relações humanas.
Confira a conversa completa no YouTube do Flitabira:
Serviço
6.º Flitabira – Festival Literário Internacional de Itabira
Tema: “A Máquina do Mundo em Nós – 75 anos de Claro Enigma”
Data: 29 de outubro a 1º de novembro de 2026
Local: Teatro da FCCDA e entorno – Itabira (MG)
Programação: mesas literárias, palestras, encontros com escritores, lançamentos, Central de Autógrafos, Livraria do Flitabira, Flitabira da Gente, Flitabira nas Escolas, Prêmio de Redação e Desenho, exposição “Autorretratos de Drummond” e programação artística
Entrada: gratuita em todas as atividades
Acessibilidade: Libras e autodescrição
Transmissão: ao vivo pelo YouTube @flitabira
Patrocínio master: Vale, via Lei Rouanet – Ministério da Cultura
Apoio: Prefeitura de Itabira, Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade e Itaú