
Por Letícia Finamore
Encontro entre Sérgio Abranches e Ale Santos, com mediação de Marcelino Freire, aproximou o afrofuturismo e a distopia climática para discutir tecnologia, desigualdade, poder e resistência.
Pensar o futuro exige, antes de tudo, a disposição de imaginar outras possibilidades de existência. Mas de onde partem os nossos imaginários sobre o que está por vir? E quem tem o direito de participar da construção dessas narrativas? A atividade “Literatura e Futurismo”, realizada às 17h, no Teatro da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA), durante o Flitabira, levantou esses e outros questionamentos. O encontro, que foi mediado pelo escritor Marcelino Freire, reuniu Sérgio Abranches e Ale Santos em uma conversa sobre como a ficção científica pode ampliar as formas de compreender o mundo.
A atividade aproximou dois caminhos literários que, embora partam de experiências distintas, compartilham a capacidade de questionar o presente por meio da imaginação. De um lado, o afrofuturismo de Ale Santos, que mobiliza a ancestralidade e a cultura afro-brasileira para construir outros referenciais de futuro. De outro, a distopia climática de Sérgio Abranches, presente em “A Franja do Fim do Mundo” (2025), que utiliza a ficção para explorar os riscos ambientais e as desigualdades do mundo atual. Embora se tratem de futurismos distintos, imaginar o porvir também é uma forma de discutir quais valores, relações e estruturas desejamos perpetuar ou transformar na sociedade.
Ale Santos chamou atenção para a diversidade de conhecimentos que historicamente alimentaram a ficção científica. Segundo o escritor, muitos de seus autores eram interessados em outras áreas, especialmente em tecnologia e ciência, e não necessariamente tinham a escrita como atividade de origem. Tal observação amplia o olhar para a ficção científica enquanto um espaço de experimentação que não se restringe ao universo literário ao passo que incorpora diferentes formas de ver e interpretar a realidade. Afinal, pensar sobre o futuro também envolve compreender as descobertas, as relações culturais e as transformações sociais que participam de sua construção.
Essa discussão ganhou outra dimensão quando Ale apresentou uma provocação apresentada por Mark Fisher em seu livro “Realismo Capitalista” sobre os limites dos nossos imaginários: “É mais fácil pensar no fim do mundo do que pensar no fim do capitalismo”. Tal citação muda o foco das catástrofes frequentemente exploradas pela ficção científica para as estruturas que sustentam a organização da vida no presente. Mesmo diante da possibilidade de imaginar cenários extremos, permanece o desafio de conceber, hoje, modelos sociais diferentes daqueles que já conhecemos. Nesse sentido, a distopia não se limita a representar um futuro ameaçador: ela também permite reconhecer, nas contradições atuais, os elementos do presente que podem culminar em cenários como esse.
Sérgio Abranches, por sua vez, trouxe a dimensão poética desse exercício de imaginação: “a poética é a forma mais pura de sonhar com o possível e com o impossível”. Sua fala, inspirada no contexto da poesia de Carlos Drummond de Andrade, aponta para a capacidade da literatura de suspender os limites do real para abrir espaços para outras experiências. Mencionando as tantas transformações tecnológicas, o escritor também aproximou a discussão das questões que envolvem a inteligência artificial, especialmente o debate sobre sua regulação. A relação entre literatura e tecnologia, nesse contexto, não diz respeito apenas à antecipação de invenções, mas também à capacidade de questionar quem controla essas ferramentas, a quem elas servem e quais consequências podem produzir.
As duas perspectivas apresentadas no encontro pelos escritores futuristas também evidenciaram que não existe uma única maneira de imaginar o futuro. O afrofuturismo amplia esse horizonte ao reivindicar a presença de referências negras e afro-diaspóricas em narrativas historicamente construídas a partir de outros referenciais culturais. A distopia climática, por sua vez, chama atenção para os efeitos das escolhas humanas sobre o planeta e para a distribuição desigual dos riscos e das possibilidades de sobrevivência. São abordagens diferentes, mas que encontram na ficção científica um território comum de reflexão sobre tecnologia, poder, segregação e resistência.
Com mediação bem-humorada conduzida por Marcelino Freire, a atividade da tarde deste sábado, 31 de outubro, aniversário de Carlos Drummond de Andrade, reforçou que o diálogo é uma das ferramentas mais poderosas para ultrapassar os limites da própria perspectiva. A literatura permite esse movimento: coloca o leitor diante de realidades que não são necessariamente as suas, apresenta outras formas de interpretar o mundo e desafia certezas construídas individualmente. O amanhã não é uma imagem pronta, à espera de ser alcançada, e sim muitas possibilidades que começam a ser disputadas, questionadas e reinventadas no presente.
Serviço
6.º Flitabira – Festival Literário Internacional de Itabira
Tema: “A Máquina do Mundo em Nós – 75 anos de Claro Enigma”
Data: 29 de outubro a 1º de novembro de 2026
Local: Teatro da FCCDA e entorno – Itabira (MG)
Programação: mesas literárias, palestras, encontros com escritores, lançamentos, Central de Autógrafos, Livraria do Flitabira, Flitabira da Gente, Flitabira nas Escolas, Prêmio de Redação e Desenho, exposição “Autorretratos de Drummond” e programação artística
Entrada: gratuita em todas as atividades
Acessibilidade: Libras e autodescrição
Transmissão: ao vivo pelo YouTube @flitabira
Patrocínio master: Vale, via Lei Rouanet – Ministério da Cultura
Apoio: Prefeitura de Itabira, Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade e Itaú