Mediados pelo montanhista e escritor Gustavo Ziller, o brasileiro Hugo Monteiro Ferreira e o italiano Roberto Parmeggiani falaram de violência na escola, de inclusão e da responsabilidade coletiva de abrir espaço para o outro

 

Por Anna Lara Resende

Em 1982, ainda menino, Hugo Monteiro Ferreira passou a ser alvo, na escola, do que hoje chama de “perseguição sistemática”. Mais de quatro décadas depois, aquela experiência chegou ao palco do 6º Festival Literário Internacional de Itabira (Flitabira), realizado de 29 de outubro a 1º de novembro. Nesta sexta-feira (30), às 17h, o pesquisador dividiu com o escritor italiano Roberto Parmeggiani a mesa “Bullying e Desabilidade – O Direito de Ser Diferente”, que abriu o segundo dia da programação nacional no Teatro da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade. A mediação foi do montanhista e escritor Gustavo Ziller. A conversa reuniu duas trajetórias diferentes: a de quem conheceu a violência por dentro e a de quem dedicou a vida profissional à inclusão de pessoas com deficiência. As duas convergiram para uma mesma preocupação: o que fazer para que a diferença deixe de ser motivo de exclusão.

A Vale apresenta a 6ª edição do Flitabira, via Lei Rouanet do Ministério da Cultura, com o apoio da Prefeitura de Itabira, da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade e do Itaú. Todas as atividades são gratuitas, acessíveis, transmitidas online pelo YouTube e estão alinhadas com os princípios do ESG (Ambiental, Social e Governança) e da ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável) da ONU (Organização das Nações Unidas). Os curadores desta edição são Sérgio Abranches e Calila das Mercês, ao lado do presidente do Festival, Afonso Borges.

Psicólogo nordestino, doutor em Educação e professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco, Hugo Monteiro Ferreira é autor de A Geração do Quarto, obra construída a partir de uma pesquisa com mais de 3 mil adolescentes. O livro investiga o isolamento, o bullying e o sofrimento emocional de jovens que, muitas vezes, se recolhem ao próprio quarto como única forma de proteção. Roberto Parmeggiani nasceu em Bolonha, é escritor, tradutor e editor e preside o Centro de Documentação Handicap da cidade. Escreve em italiano e em português. Em Desabilidade, publicado no Brasil, ele se pergunta quem decide o que é “normal” e mostra como esses padrões acabam empurrando pessoas com deficiência para as margens. Na mediação, Gustavo Ziller, que chegou ao topo do Everest em 2021 e narra suas expedições em Escalando Sonhos.

Ziller abriu o encontro com uma observação incômoda, isto é, para quem é alvo, o bullying é uma realidade enfrentada todos os dias e para quem está de fora, ele se tornou tão comum que o olhar se acostumou a ele e deixou de enxergar sua gravidade. Foi a partir dessa constatação que perguntou a Hugo como ele havia se tornado um estudioso do assunto. A resposta começou longe da escola, dentro de casa. Hugo recordou uma infância leve, divertida e livre, numa família onde não havia tabus sobre o que era brinquedo de menina ou de menino, nem regras rígidas sobre como uma criança deveria brincar. O contraste veio com a escola. No início dos anos 1980, Hugo passou a ser perseguido de forma contínua pelos colegas, e a experiência o marcou profundamente. Ele explicou que um dos efeitos mais cruéis do bullying é a culpa que a vítima carrega.

 

Quando você é vítima de bullying, tende a achar que tem culpa por tudo de ruim que acontece com você

 

À culpa somava-se a vergonha, que o impedia de procurar os pais, os irmãos mais velhos ou os avós. Sem ter com quem falar, ele enfrentava sozinho uma violência que, como fez questão de sublinhar, nunca é individual. O sofrimento daquele período foi tão intenso que, como relatou à plateia, chegou a atentar contra a própria vida. Foi dessa dor que nasceu, anos depois, o pesquisador. Já adulto, Hugo decidiu dedicar o trabalho a entender e enfrentar aquilo que tinha vivido. “Muita gente passa pelo que eu passei, e eu gostaria que, com o que produzo, pudesse ajudar a minimizar o máximo possível essa dor”, afirmou. Sem romantizar o que sofreu, disse enxergar hoje naquela história o ponto de partida de tudo o que faz, inclusive estar ali, conversando com o público sobre o tema.

 

É sempre um grupo, um coletivo contra um

 

Ao longo da mesa, o pesquisador também se dedicou a definir com precisão do que se está falando, porque, segundo ele, nem todo conflito entre crianças é bullying. Uma briga no recreio, um desentendimento entre colegas ou um xingamento dito num momento de raiva são episódios pontuais, que começam e terminam. O bullying é outra coisa e o que o caracteriza é a repetição: a agressão que volta todos os dias, dirigida sempre à mesma pessoa, sustentada por um desequilíbrio de forças entre quem ataca e quem é atacado. É exatamente essa a lógica adotada pela legislação brasileira. Desde 2015, a Lei 13.185 define o bullying como “intimidação sistemática”, ou seja, um ato de violência física ou psicológica, intencional e repetitivo, praticado por uma pessoa ou por um grupo para intimidar ou agredir alguém, numa relação de desequilíbrio de poder. A mesma lei reconhece que essa violência pode assumir muitas formas: verbal, física, psicológica, social e virtual. Em 2024, o país deu um passo além. A Lei 14.811 incluiu a intimidação sistemática no Código Penal e a tornou crime, com punição mais severa quando ela acontece no ambiente virtual, o chamado cyberbullying.

Hugo se deteve também em quem costuma ser escolhido como alvo, e esse foi um dos momentos mais sensíveis da conversa. Segundo ele, com frequência existem elementos que já fragilizam a criança antes mesmo de a perseguição começar. Muitos estão ligados à falta de autoestima e a inseguranças que ela ainda não sabe nomear. O agressor, explicou, tem uma habilidade quase intuitiva para perceber essas brechas.

 

Parece que essas pessoas têm um sinal, e o perseguidor capta esse sinal. Quando capta, vai direto nesse ponto, em que você não sabe se o que ele está dizendo é verdade ou mentira

 

A frase ajuda a entender por que o bullying deixa marcas tão fundas. Ele não atinge a criança onde ela está segura, e sim exatamente onde ela já duvida de si mesma. Quando a ofensa encontra essa dúvida, a vítima passa a acreditar no que ouve, e a culpa de que Hugo falou no início da mesa encontra terreno para crescer.

Se Hugo falou a partir da própria ferida, Roberto Parmeggiani trouxe o olhar de quem passou a vida tentando evitar que outras se abrissem. O escritor admitiu, com franqueza, nunca ter sofrido bullying na escola e se disse sortudo por isso. O encontro com o tema veio mais tarde, depois de formado em Ciências da Educação, quando começou a trabalhar com crianças com deficiência. Foi ali, no convívio diário com meninos e meninas que o mundo costuma definir pelo que lhes falta, que se aproximou do que chama de universo das desabilidades. A palavra, que dá título ao livro dele, não é um acaso. Ao trocar a “deficiência” pela “desabilidade”, Parmeggiani desloca a pergunta: o problema não está na pessoa, e sim num mundo que ainda não aprendeu a reconhecer as habilidades que fogem do padrão.

Pessoas com necessidades, capacidades e habilidades diferentes podem, e devem, ocupar o mesmo espaço. Para isso, o espaço precisa se organizar para atender a todas elas, e não o contrário. Na visão do autor, inclusão não é tolerar a presença de alguém num lugar pensado para outros, nem um favor concedido a quem é diferente. É construir, desde o início, um ambiente em que cada pessoa consiga estar presente do seu jeito, aprender no seu ritmo e conviver em paz com os demais.

Para o autor, porém, nenhuma lei dá conta sozinha dessa convivência. Ela precisa ser ensinada, isto é, do mesmo modo que a escola ensina geografia, português e matemática, deveria ensinar também a incluir. E esse aprendizado, insistiu, não pode ficar restrito à sala de aula: vale para o trabalho, para a cidade, para os espaços de cultura. Para mostrar que a ideia cabe no cotidiano, ele apontou para o próprio festival. Todas as mesas do Flitabira são transmitidas ao vivo com intérprete de Libras, e antes de cada conversa convidados e mediadores fazem a autodescrição, para que pessoas cegas ou com baixa visão entendam e conheçam quem está no palco.

São gestos que podem parecer pequenos, observou, mas que decidem se alguém participa ou fica de fora. Incluir é criar as condições para que o outro possa existir no mundo.

Se você ou alguém próximo está passando por sofrimento emocional, procure ajuda. O CVV – Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional gratuito e sigiloso, 24 horas por dia, pelo telefone 188 ou pelo chat no site cvv.org.br.

Serviço

6.º Flitabira – Festival Literário Internacional de Itabira

Tema: “A Máquina do Mundo em Nós – 75 anos de Claro Enigma”
Data: 29 de outubro a 1º de novembro de 2026
Local: Teatro da FCCDA e entorno – Itabira (MG)
Programação: mesas literárias, palestras, encontros com escritores, lançamentos, Central de Autógrafos, Livraria do Flitabira, Flitabira da Gente, Flitabira nas Escolas, Prêmio de Redação e Desenho, exposição “Autorretratos de Drummond” e programação artística
Entrada: gratuita em todas as atividades
Acessibilidade: Libras e autodescrição
Transmissão: ao vivo pelo YouTube @‌flitabira
Patrocínio master: Vale, via Lei Rouanet – Ministério da Cultura
Apoio: Prefeitura de Itabira, Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade e Itaú