
Mediada por Afonso Borges, a mesa “Leitura, Antirracismo e os Novos Tempos” reuniu as três personalidades homenageadas da edição para falar de amizade, da fundação da Mazza Edições e do caminho que abriu espaço para a autoria negra no Brasil
Por Anna Lara Resende
Comadre, explicou Conceição Evaristo, é aquela pessoa a quem a gente confia as intimidades e o cuidado dos filhos. Foi com essa palavra, carregada de afeto, que a escritora se referiu a Leda Maria Martins e a Maria Mazzarello, com quem dividiu o palco na noite deste sábado (31), no Teatro da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade. As três são as personalidades homenageadas do 6º Festival Literário Internacional de Itabira (Flitabira), realizado de 29 de outubro a 1º de novembro na cidade natal de Carlos Drummond de Andrade, e se encontraram na mesa “Leitura, Antirracismo e os Novos Tempos”, mediada pelo presidente do festival, Afonso Borges. Ao longo da noite, cada uma foi contando como conheceu as outras, e, à medida que essas lembranças se somavam, o que se desenhava no palco era também uma história da literatura negra brasileira, feita da coragem de uma editora fundada em 1981, dos livros que nasceram dessa aposta e da defesa da universidade pública como parte desse caminho.
A Vale apresenta a 6ª edição do Flitabira, via Lei Rouanet do Ministério da Cultura, com o apoio da Prefeitura de Itabira, da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade e do Itaú. Todas as atividades são gratuitas, acessíveis, transmitidas online pelo YouTube e estão alinhadas com os princípios do ESG (Ambiental, Social e Governança) e da ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável) da ONU (Organização das Nações Unidas). Os curadores desta edição são Sérgio Abranches e Calila das Mercês, ao lado do presidente do Festival, Afonso Borges.
Ao abrir a conversa, Afonso lembrou que foram a palavra, a educação e a literatura que aproximaram as três convidadas, e que desse encontro nasceram também as obras de cada uma. Reunir as três numa mesma noite, disse, tinha sido uma beleza do acaso, tão cheias são as suas agendas, e a riqueza da mesa estava justamente nos caminhos diferentes que elas percorreram. Leda fez da poesia o centro de sua criação, enquanto Conceição construiu no romance boa parte de sua obra. Mazzarello, embora também tenha livros publicados, tem na Mazza Edições, dedicada à autoria negra, a grande obra de sua vida. Foi a partir dessa diversidade que Afonso fez o convite que conduziria toda a noite: que cada uma contasse a própria história e a história do encontro entre elas.
Conceição foi a primeira a falar, e começou pela admiração e pelo respeito que tem pelas duas, com quem compartilha trajetórias que se atravessam há décadas. Conheceu Mazzarello no Rio de Janeiro, em 1981, quando a Mazza Edições ainda dava os primeiros passos. Anos mais tarde, quando chegou a hora de publicar seu primeiro romance, a timidez quase a impediu de fazer o pedido à amiga, e foi preciso que um amigo em comum fizesse a ponte entre as duas. Foi assim que a Mazza lançou Ponciá Vicêncio, em 2003, e, três anos depois, Becos da Memória, um livro que esperou muito tempo para encontrar os leitores. Escrito bem antes, ele seria publicado pela Fundação Palmares, mas a falta de recursos fez com que passasse quase vinte anos guardado na gaveta.
Ao relembrar esse percurso, Conceição fez questão de destacar o que mais admira na amiga. “O que eu quero afirmar de Mazza é a coragem dela”, disse, lembrando que, ainda durante a ditadura militar, uma mulher negra decidiu fundar em Belo Horizonte uma editora para publicar uma autoria negra que, naquele tempo, era praticamente desconhecida.
Com Leda, o encontro aconteceu primeiro pela leitura. Antes de conhecê-la pessoalmente, Conceição chegou a ela por meio de seus textos, em especial o artigo “O feminino corpo da negrura”, publicado em 1996 na revista Aletria, da UFMG, em que Leda investiga a produção poética e ficcional de escritoras negras brasileiras. Daqueles textos teóricos, contou, aprendeu muito.
Quando chegou sua vez, Leda admitiu que já não sabe precisar o dia em que conheceu Conceição, embora guarde viva a lembrança de um tempo de convivência muito próxima, em que os filhos das duas brincavam juntos e frequentavam a casa uma da outra. A falta de uma data, no entanto, virou motivo de reflexão: “esse quando nosso faz parte dos espirais do tempo”, disse, numa referência ao tempo espiralar, conceito que atravessa toda a sua obra. A Mazzarello, Leda chegou por intermédio do poeta e pesquisador mineiro Edimilson de Almeida Pereira. Para ela, é impossível contar a história da literatura brasileira sem passar pela editora.
Quando a gente estuda a questão dos meios de produção no Brasil, principalmente na literatura, a gente tem que esbarrar em Mazza
A autora lembra que a Mazza Edições foi a primeira do país a fazer da autoria negra o seu compromisso e e esse reconhecimento, aliás, ficou registrado em sua própria obra. Quando publicou Afrografias da Memória, Leda poderia ter lançado o livro por uma única editora, mas fez questão de que ele saísse em coedição com a Mazza, como forma de homenagear a amiga e o trabalho que ela vinha fazendo.
Depois de ouvir tanto sobre si, Maria Mazzarello contou a própria história, que começa em Ponte Nova, na Zona da Mata mineira. Ainda jovem, mudou-se para Belo Horizonte, onde, aos 18 anos, se formou técnica em contabilidade e começou a trabalhar com livros, ofício que nunca mais abandonaria. O primeiro contato real com a produção editorial veio no início dos anos 1960, na gráfica do Programa de Assistência Brasileiro-Americana ao Ensino Elementar (PABAEE), e, em 1961, ela ingressou no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Minas Gerais. Nos anos seguintes, participou da criação de iniciativas importantes do mercado editorial de Belo Horizonte, como a Editora do Professor, a Livraria do Estudante e a Editora Vega.
Foi longe de casa, porém, que veio a virada. No fim dos anos 1970, Mazzarello mudou-se para a França para fazer mestrado em Editoração na Universidade Paris XIII e, ali, percebeu que personagens, escritores e poetas negros circulavam com naturalidade nos livros europeus, algo que nunca tinha visto no Brasil. Contou que viveu uma espécie de epifania ao se dar conta de que havia trabalhado vinte anos com livros sem jamais ter visto autores negros publicados em seu próprio país. Era também o tempo do Movimento Negro Unificado, criado em 1978, e essas ideias foram se assentando aos poucos, levando-a a questionar tudo o que via. Por isso, quando terminou o mestrado e recebeu uma bolsa para seguir com o doutorado, decidiu recusá-la e voltar ao Brasil para fundar uma editora dedicada à autoria negra.
Eu não vou publicar o que a branquitude publica, nem o que o colonizador publica
A palavra final ficou com Leda, que escolheu dedicá-la à universidade pública. No Brasil, lamentou, ela é muitas vezes vilanizada e pouco respeitada, e por isso fez um apelo para que siga existindo e continue gratuita. Para ela, a história que as três haviam acabado de contar também passa por ali. “Muito do que se fez para que houvesse essa pulsão literária para a diversidade se deve também à universidade pública brasileira”, afirmou. Foi uma forma de lembrar que, por trás das obras e da amizade das três homenageadas, há também instituições e escolhas coletivas que permitiram que essas vozes chegassem aos livros e, naquela noite, a um mesmo palco em Itabira.
Assista a conversa completa abaixo:
Serviço
6.º Flitabira – Festival Literário Internacional de Itabira
Tema: “A Máquina do Mundo em Nós – 75 anos de Claro Enigma”
Data: 29 de outubro a 1º de novembro de 2026
Local: Teatro da FCCDA e entorno – Itabira (MG)
Programação: mesas literárias, palestras, encontros com escritores, lançamentos, Central de Autógrafos, Livraria do Flitabira, Flitabira da Gente, Flitabira nas Escolas, Prêmio de Redação e Desenho, exposição “Autorretratos de Drummond” e programação artística
Entrada: gratuita em todas as atividades
Acessibilidade: Libras e autodescrição
Transmissão: ao vivo pelo YouTube @flitabira
Patrocínio master: Vale, via Lei Rouanet – Ministério da Cultura
Apoio: Prefeitura de Itabira, Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade e Itaú