
Aos 23 anos, escritor transforma experiências de infância, racismo e encontros decisivos em crônicas. Livro tem prefácio de Afonso Borges e será apresentado no sábado, 31 de outubro, em Itabira
Aos 13 anos, Carlos Vinícius chegou ao Fliaraxá acompanhado da avó, vestindo o uniforme escolar que ela havia lavado e passado cuidadosamente. Sua professora, Sueli, havia inscrito uma redação no concurso literário do festival, e o menino conquistara o terceiro lugar. Recebeu um prêmio de mil reais e voltou para casa com uma experiência que guardaria na memória. Quase dez anos depois, aquele menino é escritor. Aos 23 anos, Carlos lança “Bendito” (Ed. Ramalhete), seu livro de estreia, durante o 6º Flitabira – Festival Literário Internacional de Itabira, no sábado, 31 de outubro.
Aqui, um pouco da sua história:
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A obra reúne crônicas protagonizadas por Bento, um menino negro que cresce em meio às dificuldades econômicas, ao racismo e às descobertas da infância. Publicado em Belo Horizonte, em 2026, Bendito acompanha personagens e episódios que ajudam a compreender a formação de seu protagonista. São histórias de professores, familiares, amizades e desconhecidos que, em diferentes momentos, interferem no modo como Bento passa a enxergar a si mesmo e o mundo.
Uma dessas histórias começa com uma criança que chega cedo demais à escola, senta-se no chão gelado e tenta esconder que ainda não sabe ler. A professora Luciene percebe sua dificuldade e o acompanha até que ele consiga juntar as sílabas. Quando Bento finalmente lê a palavra “professora”, a turma inteira comemora. Em outra crônica, já adolescente, ele trabalha numa lanchonete, aos 14 anos, mentindo ter 16 para conseguir o emprego. Uma cliente se recusa a aceitar de suas mãos um copo de água, embora aceite o mesmo copo, com a mesma água, quando oferecido por um colega. Bento compreende o que aconteceu, mas permanece calado porque precisa daquele trabalho.
Esses episódios revelam uma das características mais interessantes do livro: Carlos Vinícius não apresenta o racismo e a desigualdade apenas como grandes questões sociais. Ele mostra como essas experiências aparecem nas situações mais corriqueiras, numa sala de aula, no ambiente de trabalho, nas relações familiares e nos gestos aparentemente insignificantes do cotidiano.
Mas Bendito também é um livro sobre as pessoas que ajudam a mudar uma trajetória. Entre elas está Jorge, professor de biologia do CEFET, homem de humor ácido que dizia não ajudar ninguém, mas que, ao perceber as dificuldades enfrentadas pelo estudante, encontrou uma maneira de fazê-lo recuperar a confiança e continuar estudando. Há ainda a amizade com Vitória, companheira de caminhadas e conversas, e uma visita a um centro de umbanda que se transforma numa experiência de acolhimento e reconhecimento.
“É um livro sobre como pequenos encontros salvam vidas inteiras, e como a gente carrega, junto com nossas dores, as vozes e gestos daqueles que, um dia, nos fizeram existir de verdade”, afirma Carlos Vinícius.
O menino que voltou à literatura
O episódio do concurso de redação ocupa um lugar especial em Bendito. A história é retomada na crônica “Ferro de passar” e também no prefácio escrito por Afonso Borges, criador do Fliaraxá e do Flitabira. Borges estava presente quando Carlos recebeu o prêmio, mas só conheceu a dimensão daquela experiência ao ler o manuscrito do livro.
No prefácio, ele recorda a chegada do menino ao festival, acompanhado da avó e da professora, e observa que o prêmio não explica, sozinho, o caminho percorrido por Bento. Antes daquele palco, havia pessoas que o incentivaram a estudar e escrever; depois dele, vieram outras experiências que o autor transformou em literatura.
O reencontro entre os dois, agora nas páginas de um livro, dá uma dimensão particular ao lançamento no Flitabira. Carlos Vinícius retorna ao ambiente dos festivais literários não mais como o estudante premiado por uma redação, mas como autor de uma obra que recupera sua infância e reflete sobre as condições em que crianças negras e pobres constroem suas histórias.
Lançamento no Flitabira
Carlos Vinícius participa da programação do sábado, 31 de outubro, às 15h, na mesa “Outras Habilidades”, ao lado do escritor e educador italiano Roberto Parmeggiani. O encontro aproxima duas experiências literárias interessadas nas diferenças humanas, na educação e na importância do reconhecimento do outro.
A participação será seguida de uma sessão de autógrafos de Bendito. O lançamento integra a programação do 6º Flitabira, que acontece de 29 de outubro a 1º de novembro, em Itabira, com o tema “A Máquina do Mundo em Nós”, em celebração aos 75 anos de publicação de Claro Enigma, de Carlos Drummond de Andrade.
Sobre o autor
Carlos Vinícius é escritor, articulador cultural, poeta slammer e produtor cultural. Desde 2019, desenvolve projetos ligados à literatura, à poesia falada, à cultura negra e à valorização de artistas e comunidades periféricas. Participa da curadoria e produção de eventos culturais, entre eles o Fliaraxá, com trabalhos voltados à memória, à educação e à representatividade. Aos 23 anos, publica Bendito, sua estreia literária, reunindo crônicas sobre infância, desigualdade racial, formação e pertencimento.
Serviço
Lançamento do livro: Bendito, de Carlos Vinícius
Data: Sábado, 31 de outubro de 2026
Horário: 15h – Mesa “Outras Habilidades”, com Roberto Parmeggiani, seguida de sessão de autógrafos
Local: 6º Flitabira – Teatro da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, Itabira (MG)
Entrada: Gratuita