
Em mesa bem-humorada, mediada por Sérgio Abranches, o poeta e cronista Carpinejar defendeu o tédio a dois, a calmaria em vez da euforia e uma boa noite de sono como matéria-prima dos afetos
Se a vida é um filme de baixo orçamento, como definiu Fabrício Carpinejar, o amor dispensa grandes efeitos especiais. Foi a partir dessa ideia que o poeta e cronista conduziu, na noite desta quinta-feira (29), a mesa que fechou o primeiro dia de programação nacional do 6º Flitabira – Festival Literário Internacional de Itabira, realizado de 29 de outubro a 1º de novembro na cidade natal de Carlos Drummond de Andrade. Em “Poesia e Amor no Cotidiano”, mediada pelo escritor e curador Sérgio Abranches no Teatro da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, Carpinejar transitou entre paixão, amizade, filhos e até a qualidade do sono, sempre com histórias pessoais e um humor que arrancou risadas da plateia do começo ao fim.
A Vale apresenta a 6ª edição do Flitabira, via Lei Rouanet do Ministério da Cultura, com o apoio da Prefeitura de Itabira, da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade e do Itaú. Todas as atividades são gratuitas, acessíveis, transmitidas online pelo YouTube e estão alinhadas com os princípios do ESG (Ambiental, Social e Governança) e da ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável) da ONU (Organização das Nações Unidas). Os curadores desta edição são Sérgio Abranches e Calila das Mercês, ao lado do presidente do Festival, Afonso Borges.
O cotidiano é, há muito tempo, o território de Carpinejar. Poeta, cronista e jornalista de Caxias do Sul, ele soma mais de 50 livros publicados e dois prêmios Jabuti. Também mantém uma coluna diária no jornal Zero Hora, onde transforma em texto as miudezas da vida doméstica, das relações e da família. É desse mesmo chão que nasce seu livro mais recente, Deixe Ir, publicado pela Record em 2025. O autor o define como “um manual do desapego”: em 112 páginas, sem capítulos nem pausas, escritas como uma única carta, ele fala de como se afastar de relações que fazem mal, sejam amorosas, familiares ou de amizade. O livro aborda narcisismo, dependência emocional e violência, e sustenta que amar não é sacrifício, renúncia nem privação.
Se Deixe Ir trata do que é preciso abandonar, a conversa em Itabira se dedicou ao que vale a pena manter. Carpinejar começou pela mesa de jantar. Conta que depois de frequentar muitos restaurantes caros, admitiu, a comida preferida dele continua sendo a da mãe e a da avó. Com o amor, sugeriu, acontece algo parecido. A paixão é cara, porque faz a gente gastar o que não tem, com motel, flores e gestos grandiosos. O amor se revela em outro lugar: em continuar sentindo atração pela pessoa numa noite qualquer, de pijama.
O amor é ter alguém compatível para não fazer nada
Para ele, o tédio compartilhado é uma das provas mais sinceras de afeto e mora nas coisas banais, como ver um filme juntos ou cozinhar a dois. Entre uma reflexão e outra, o autor brincou com futebol e com o velho hábito de levar sapatos ao sapateiro, e a plateia respondeu com gargalhadas. O humor, porém, nunca esvaziou o argumento. Ao contrário, era o caminho para chegar a ele. “O amor não é feito para o espetáculo, e sim para uma simplicidade secreta (…) O bonito de amar é a possibilidade única de ser vulnerável”, afirmou o escriitor caxiense. Na outra ponta estaria o desamor, que ele chamou de “brutal teimosia”. A dificuldade de se entregar, observou, tem a ver com o estado de alerta permanente em que as pessoas vivem, e que as torna infelizes. Para ser alegre, é preciso se permitir alguma desatenção. Daí a distinção que propôs entre felicidade e euforia: a primeira é calmaria, a segunda atropela. Só os afetos movidos pela felicidade, defendeu, conseguem durar.
O amor é uma forma de se centrar
Esse centro, na visão de Carpinejar, começa antes do encontro com o outro. Gostar da própria companhia e saber estar sozinho é o que permite construir vínculos saudáveis, no amor ou na amizade. Quando essa base falta, abre-se espaço para relações desequilibradas, e foi nesse ponto que o autor rejeitou a ideia de amar dentro de uma hierarquia. Para ele, a desigualdade nos afetos funciona como uma licença para o abuso, tema que atravessa também as páginas de Deixe Ir. Os amigos verdadeiros apareceram como contrapeso: são eles que aconselham e lembram cada um do seu lugar no mundo. A mesma lógica vale para os filhos, que precisam ser vistos como pessoas próprias, e não como extensão de quem os criou.
Na reta final, a conversa chegou ao sono. Quem dorme bem é mais feliz, garantiu Carpinejar e, a partir daí, os autorees passaram a trocar relatos da vida a dois com as respectivas esposas, feitos de companheirismo e pequenos cuidados. Um deles é a roupa escolhida na véspera por quem acorda mais cedo, para não fazer barulho e atrapalhar o descanso do outro. No filme de baixo orçamento descrito por Carpinejar, é nesse tipo de cena, discreta e quase invisível, que o amor acontece.
Serviço
6.º Flitabira – Festival Literário Internacional de Itabira
Tema: “A Máquina do Mundo em Nós – 75 anos de Claro Enigma”
Data: 29 de outubro a 1º de novembro de 2026
Local: Teatro da FCCDA e entorno – Itabira (MG)
Programação: mesas literárias, palestras, encontros com escritores, lançamentos, Central de Autógrafos, Livraria do Flitabira, Flitabira da Gente, Flitabira nas Escolas, Prêmio de Redação e Desenho, exposição “Autorretratos de Drummond” e programação artística
Entrada: gratuita em todas as atividades
Acessibilidade: Libras e autodescrição
Transmissão: ao vivo pelo YouTube @flitabira
Patrocínio master: Vale, via Lei Rouanet – Ministério da Cultura
Apoio: Prefeitura de Itabira, Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade e Itaú