Por Letícia Finamore

Escritora e pesquisadora baiana defendeu a descolonização das relações amorosas e o autocuidado como tecnologias de sobrevivência para a população negra

A mesa “Amor Preto”, protagonizada pela escritora e pesquisadora Carla Akotirene, com mediação de Afonso Borges, movimentou o Teatro da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA), em Itabira (MG), na noite deste dia 29 de outubro de 2026, às 19h30. O encontro integrou a programação oficial do Flitabira – Festival Literário Internacional de Itabira, realizado de 29 de outubro a 1.º de novembro de 2026. A sessão reuniu o público para debater as possibilidades do afeto entre pessoas negras e o amor como território de resistência e reconstrução diante do racismo estrutural, a partir das teses apresentadas no novo livro da autora, que nomeia a atividade em questão.

A Vale apresenta a sexta edição do Flitabira, via Lei Rouanet do Ministério da Cultura, com o apoio cultural da Prefeitura de Itabira, da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA) e do Itaú. Todas as atividades são gratuitas, acessíveis, transmitidas online pelo Youtube e estão alinhadas com os princípios do ESG (Ambiental, Social e Governança) e da ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável) da ONU (Organização das Nações Unidas).

Durante a apresentação, Carla aprofundou o conceito do “pacto oxúnico da negritude” em contraposição ao pacto narcísico da branquitude. A autora destacou que, diferentemente da figura europeia de Narciso, que adora a si mesmo em seu reflexo e ignora o outro, a divindade africana Oxum utiliza o espelho para enxergar e acolher aqueles que estão às suas costas, em um gesto de valorização da coletividade e da ancestralidade. A pesquisadora, nascida em Salvador, Bahia, argumentou que o racismo, o capitalismo e o heteropatriarcado operam para impedir que a população negra ame as pessoas colocadas em seu caminho pela matriz ancestral, fragmentando os laços comunitários. Com isso, ela defendeu o amor como uma tecnologia de resistência política e espiritual, essencial para o resgate da memória e para a descolonização das relações afetivas.

Akotirene também dissertou sobre a matriz de opressão colonial, pontuando uma dificuldade estrutural em separar gênero, classe e raça, e lembrando que esta precedeu outras formas de categorização no processo de escravização. A escritora chamou a atenção para o machismo que afasta homens e mulheres negras e convocou o público a praticar um amor antirracista, que não exija a assimilação de estéticas eurocêntricas (a “máscara branca” criticada por Frantz Fanon) e que valorize a humanidade e a beleza dos corpos negros. Bem franca, Carla ressaltou enfaticamente o autocuidado para as mulheres negras, frequentemente relegadas ao papel de cuidadoras enquanto sofrem com o abandono institucional e a sobrecarga sistêmica. Finalizando, a autora defendeu a conexão com a espiritualidade como base para cura e emancipação.

Assista a mesa “Amor Preto” no YouTube do Flitabira:

Serviço

6.º Flitabira – Festival Literário Internacional de Itabira

Tema: “A Máquina do Mundo em Nós – 75 anos de Claro Enigma”
Data: 29 de outubro a 1º de novembro de 2026
Local: Teatro da FCCDA e entorno – Itabira (MG)
Programação: mesas literárias, palestras, encontros com escritores, lançamentos, Central de Autógrafos, Livraria do Flitabira, Flitabira da Gente, Flitabira nas Escolas, Prêmio de Redação e Desenho, exposição “Autorretratos de Drummond” e programação artística
Entrada: gratuita em todas as atividades
Acessibilidade: Libras e autodescrição
Transmissão: ao vivo pelo YouTube @‌flitabira
Patrocínio master: Vale, via Lei Rouanet – Ministério da Cultura
Apoio: Prefeitura de Itabira, Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade e Itaú