“a máquina do mundo se entreabriu

para quem de a romper já se esquivava

e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,

sem emitir um som que fosse impuro

nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção

continua e dolorosa do deserto,

e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende

a própria imagem sua debuxada

no rosto do mistério, nos abismos.”

 

Estas são estrofes do poema extraordinário, ponto culminante da poesia brasileira, não apenas por sua beleza mas por sua imortal atualidade. A máquina do mundo, de Carlos Drummond de Andrade é uma síntese dolorosa e verdadeira do que somos, do que ainda somos. Um país de ousado povo que bordeja o abismo. Vê nele toda a escuridão do mal. Aproxima-se de sua borda. Arrisca-se à vertigem e ao convite a mergulhar no vácuo da vasta engrenagem de opressão e exploração. Mas, antes da queda iminente, dele se desvia para evitá-lo no último instante.

Não é a interpretação do poema, é um pensamento que me cruzou a mente, me fez pensar na “natureza mítica” das coisas, até mesmo das que carregam em si o mal absoluto, máquinas de maldades. Este poema está no livro Claro Enigma, que completa hoje 75 anos. É, ao lado de Dom Casmurro, de Machado de Assis, Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa e Vidas Secas, de Graciliano Ramos, o âmago e o ápice da literatura brasileira e, eu diria, da literatura periférica, que rivaliza e desafia a literatura “ocidental”, junto aos outros grandes da literatura latino-americana e africana.

Mas não foi por isso que pensei na máquina do mundo e dos abismos que ela pode revelar. Eu estava, ontem, fazendo a abertura do VI Flitabira, na cidade de Drummond, com o tema A máquina do mundo em nós e estruturado a partir do poema, ao lado da querida Calila das Mercês e do querido Afonso Borges, nós três curadores do festival. Diante do auditório lotado e vibrante, toda vez que alguém aludia ao abismo, à escuridão, ao mal, os aplausos e manifestações vocais da plateia participante deixavam inequívoco, ao que nos referíamos. A extrema-direita não foi convidada para aquela festa. E, se fosse, seria, com certeza intoxicada pelo livre circular das ideias e pelo uso da palavra cuidadosamente escolhida como arma da paz.

O Brasil acordou no dia 26 de outubro de 2026 como o país que mostrou ao mundo como se pode livrar da ameaça da extrema-direita que avançou mais articulada, montada em seu partido digital, máquina de espalhar mentiras e ideias de opressão. Como se a opressão tivesse alguma virtude. Mas a humanidade parece nunca se livrará para sempre desse mal que navega em ideias obscuras e desejos inconfessados. Uma virada que mostrou ser possível vencer a onda extremodireitista e os viéses dos algoritmos das plataformas e virá-los a favor de outras palavras, ou se preferirem outros memes.

A vibração do público ao ouvir a palavra forte de Carla Akotirene que rasga o coração para falar do amor preto, numa cidade com 75% de negros na população, mostrava que ninguém estava ali de brincadeira. Mas todos nos divertíamos muito nesta festa da literatura, de louvor ao livro e à escrita. Do império absoluto da palavra poética, ficcional, ensaística. Podíamos cantar todos, com Caetano, a nossa felicidadania. Aqui, nessa festa para que todos foram convidados, somos diversos, iguais e trocamos o melhor de nossas habilidades e desabilidades.

Parece puro jogo de palavras, mas o poder de encontros como esse, em que as comunidades dos escritores e do povo se fundem em torno da palavra falada, escrita, cantada, declamada, pode ter um poder restaurador imenso. No sábado, acontecerá o momento mais forte de nosso festival: a entrega dos prêmios de redação. As escolas participam voluntariamente, durante um mês, os professores trabalham o tem do festival com as crianças, desde as pré-letradas aos jovens do ensino médio. Os desenhos dos que ainda não têm o letramento, e as redações são analisadas por jurados locais e crianças e jovens recebem o seu primeiro prêmio literário em dinheiro. As famílias vão orgulhosas celebrar seus vencedores, os colegas torcem e aplaudem os seus pares a serem revelados. Redações de muita qualidade, muita sinceridade e emoção. Desses concursos já saíram três escritores.

Um deles, Carlos Vinicius, lança no Flitabira, seu primeiro livro, Bendito. Sua redação ganhou há dez anos o prêmio no Fliaraxá, outro de nossos festivais literários, além do Fliparacatu e do Flipetrópolis, cuja terceira edição será de 12 a 15 de novembro. O livro reúne crônicas do cotidiano de Bento, menino negro que escreve em um ambiente de dificuldades econômicas e racismo. Fala das dores e das descobertas da infância, de professores, familiares e amigos. Eu definiria como crônicas de formação.

Não mudamos o mundo com nossos livros e festivais. Mas mudamos realidades que, essas sim, são capazes de mudar o mundo.