Publicado há 75 anos em Claro Enigma, o poema “A Máquina do Mundo” dá nome ao tema do 6º Flitabira e ao Prêmio de Redação e Desenho desta edição

 

Numa estrada de Minas, ao entardecer, um homem caminha sozinho quando o mundo inteiro se abre diante dele. É a cena central de “A Máquina do Mundo”, poema de Carlos Drummond de Andrade que dá nome ao tema do 6º Flitabira – Festival Literário Internacional de Itabira: “A Máquina do Mundo em Nós”. O festival acontece de 29 de outubro de 2026, quinta-feira, a 1º de novembro, domingo, no Teatro da FCCDA, e celebra os 75 anos de Claro Enigma (1951), livro em que o poema foi publicado.

Com patrocínio master da Vale, via Lei Rouanet – Ministério da Cultura, e apoio da Prefeitura de Itabira, da FCCDA e do Itaú, o festival mantém toda a programação gratuita. As mesas são transmitidas ao vivo pelo YouTube (@flitabira), com Libras e audiodescrição. O Flitabira também compensa o carbono gerado pela estrutura e pelos deslocamentos do evento em parceria com o Instituto Terra, que financia o cultivo de espécies nativas para restauração florestal, e substituiu os copos descartáveis por opções biodegradáveis com certificação FSC.

 

75 anos de “Claro Enigma”, de Drummond

No poema, a “máquina do mundo” é uma revelação total: o universo se oferece ao caminhante, pronto para explicar tudo o que existe. E o que ele faz com essa oferta é o que torna o poema tão discutido: baixa os olhos, recusa a resposta e segue andando no escuro. Um poema sobre a explicação de tudo termina, paradoxalmente, com alguém que escolhe não saber.

O título não é original de Drummond — é uma resposta direta a Camões. Em Os Lusíadas, no Canto X, a deusa Tétis mostra a Vasco da Gama uma esfera com o funcionamento do cosmos: a “máquina do mundo” ali é prêmio, recompensa de um herói vitorioso. Drummond inverte o gesto: a revelação chega de graça, sem que ninguém tenha feito por merecer, a um homem cansado — e ele a recusa. Na forma, o poema também conversa com Dante: são 32 tercetos decassílabos, remetendo à arquitetura da Divina Comédia, ainda que sem a rima entrelaçada do original.

Claro Enigma marca uma virada na obra de Drummond. Depois da poesia mais social e engajada de A Rosa do Povo (1945) — livro que, não por acaso, foi o tema do Flitabira em 2025 —, o poeta se volta para o metafísico e o existencial, sob a sombra da Guerra Fria e da bomba atômica. Não é acaso que a certeza vira, nesse momento da sua obra, algo a ser desconfiado. É um poema que parte da crítica e do público consideram um dos mais bonitos já escritos em língua portuguesa, e que segue sendo lido, décadas depois, como um dos pontos mais altos da poesia brasileira do século 20.

Setenta e cinco anos depois, o Flitabira pega esse poema e faz uma pergunta simples: e se a máquina do mundo não abrisse só uma vez, numa estrada deserta, para um homem só? E se ela estivesse sempre ligada, rodando dentro de cada um — nos sistemas, na tecnologia, na quantidade de informação que atravessa um dia comum? É daí que vem o “em nós”: não mais uma revelação rara, mas uma condição permanente. O tema atravessa a programação inteira, que passa por corpo e identidade, ancestralidade, futuro e tecnologia, memória e antirracismo — e também organiza o Prêmio de Redação e Desenho desta edição.

Serviço

6º Flitabira – Festival Literário Internacional de Itabira

Tema: “A Máquina do Mundo em Nós – 75 anos de Claro Enigma”

Data: 29 de outubro a 1º de novembro de 2026

Local: Teatro da FCCDA e entorno – Itabira (MG)

Programação: mesas literárias, palestras, encontros com escritores, lançamentos, Central de Autógrafos, Livraria do Flitabira, Flitabira nas Escolas, Prêmio de Redação e Desenho, exposição “Autorretratos de Drummond” e programação artística

Entrada: gratuita em todas as atividades

Acessibilidade: Libras e audiodescrição

Transmissão: ao vivo pelo YouTube @flitabira

Patrocínio master: Vale, via Lei Rouanet – Ministério da Cultura

Apoio: Prefeitura de Itabira, FCCDA e Itaú