
Por Letícia Finamore
Sob a mediação de Calila das Mercês, Octavio Guedes e Sérgio Abranches debateram como as engrenagens do poder, as elites e o imprevisto moldaram e continuam a desenhar a história do Brasil
O verso “na estranha ordem geométrica de tudo”, extraído do clímax do poema “A Máquina do Mundo”, escrito por Carlos Drummond de Andrade em 1951, deu o tom do encontro que ocupou o palco do Teatro FCCDA. A mesa reuniu o comentarista da GloboNews Octavio Guedes e o escritor e sociólogo Sérgio Abranches, sob a mediação da jornalista e escritora Calila das Mercês. Assim como o eu-lírico de Drummond ressignifica a ordem sob um olhar cético ao se ver deslocado diante da imensidão enigmática do cosmos, o debate se voltou para uma investigação contemporânea das estruturas, dos imprevistos e dos desvios que pautam a história da política brasileira.
A construção da identidade nacional e o peso das narrativas oficiais dominaram a análise. Sérgio Abranches, autor do recente “A terceira margem do Ipiranga: Povo, Democracia e Futuro”, destacou que o Brasil se constituiu várias vezes ao longo dos séculos, sempre pelas mãos das elites dominantes de cada época. Segundo ele, a verdadeira essência brasileira corre em uma terceira margem, representada pelos movimentos populares que vieram diretamente do povo, a exemplo da República Baiana e da Revolução Pernambucana. Abranches reforçou que que a primeira instituição criada no território nacional foi privada, a casa-grande, uma mentalidade escravocrata que ainda assombra a sociedade e precisa ser superada para não comprometer o futuro. O autor defende que a democracia só avança de fato por meio da atuação daqueles que estão fora do poder.
Indo na contramão das biografias tradicionais, Octavio Guedes concentrou a sua fala nas figuras tratadas como figurantes e no que chamou de “impacto vertiginoso do imprevisível”. Tendo a política brasileira como matéria-prima de seu livro “Heróis por Acaso”, Guedes pontuou que o acaso opera como uma mão invisível e amoral, empurrando personagens improváveis para mudarem os rumos da nação. O jornalista resgatou memórias frequentemente apagadas, como a de Anaíde, cujas cartas amorosas expostas desencadearam o assassinato de João Pessoa e deram o pretexto político para a deflagração da Revolução de 30. Tratada como devassa e perseguida até o suicídio, ela integra o rol de personagens secundárias que encantam o autor justamente por “exporem os ‘furos’ da história oficial”.
Ter no pensamento crítico e na literatura a força para uma consolidação democrática guiou as reflexões finais da mesa de debate. Os convidados projetaram o cenário sociopolítico nacional, mas sem antes deixar mensagens complementares. “O meu sonho é que possamos aprender com a história e nunca naturalizar os extremismos”, disse Octavio Guedes. Reforçando a necessidade de romper com o ciclo de passividade institucional, Sérgio Abranches apontou para o protagonismo social contínuo: “O meu desejo é que a história do futuro seja o oposto do que foi no passado. O povo nunca aceitou o que lhe foi imposto, e espero que se levante para impedir que as elites reacionárias prevaleçam”.
Serviço
6.º Flitabira – Festival Literário Internacional de Itabira
Tema: “A Máquina do Mundo em Nós – 75 anos de Claro Enigma”
Data: 29 de outubro a 1º de novembro de 2026
Local: Teatro da FCCDA e entorno – Itabira (MG)
Programação: mesas literárias, palestras, encontros com escritores, lançamentos, Central de Autógrafos, Livraria do Flitabira, Flitabira da Gente, Flitabira nas Escolas, Prêmio de Redação e Desenho, exposição “Autorretratos de Drummond” e programação artística
Entrada: gratuita em todas as atividades
Acessibilidade: Libras e autodescrição
Transmissão: ao vivo pelo YouTube @flitabira
Patrocínio master: Vale, via Lei Rouanet – Ministério da Cultura
Apoio: Prefeitura de Itabira, Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade e Itaú