
Com mediação de Geni Núñez, a mesa “Amazônia Ancestral” reuniu memória, denúncia e poesia, do massacre ligado à Expedição Calleri às mulheres makuxi e às línguas indígenas que resistem
Por Anna Lara Resende
“Eu tô falando em 1968, não em 1500.” Foi com essa frase que a escritora e jornalista Verenilde Pereira lembrou à plateia que a violência contra os povos indígenas da Amazônia não pertence a um passado distante, e sim a uma história recente, que ainda pede para ser contada. A fala marcou a mesa “Amazônia Ancestral”, realizada no início da noite deste sábado (31), no Teatro da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, como parte do terceiro dia de programação nacional do 6º Festival Literário Internacional de Itabira (Flitabira), realizado de 29 de outubro a 1º. A poeta Makuxi Sony Ferseck e Verenilde Pereira, com mediação da escritora guarani Geni Núñez, falaram de memória e de literatura como forma de preservá-la.
A Vale apresenta a 6ª edição do Flitabira, via Lei Rouanet do Ministério da Cultura, com o apoio da Prefeitura de Itabira, da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade e do Itaú. Todas as atividades são gratuitas, acessíveis, transmitidas online pelo YouTube e estão alinhadas com os princípios do ESG (Ambiental, Social e Governança) e da ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável) da ONU (Organização das Nações Unidas). Os curadores desta edição são Sérgio Abranches e Calila das Mercês, ao lado do presidente do Festival, Afonso Borges.
As duas convidadas escrevem a Amazônia a partir de dentro. Nascida no Amazonas em 1956, filha de mãe negra e pai Sateré-Mawé, Verenilde Pereira foi repórter em Manaus e Belém, cobriu garimpos na terra Yanomami e no Alto Rio Negro e trabalhou como professora num seringal às margens do rio Purus. Seu romance Um rio sem fim, publicado de forma independente em 1998, ganhou recentemente nova edição pela Alfaguara. Sony Ferseck, cujo nome em makuxi é Wei Paasi, é poeta e pesquisadora de Roraima, doutora em Literatura pela Universidade Federal Fluminense e cofundadora da Wei Editora, a primeira editora independente do estado. Entre seus livros está Weiyamî: mulheres que fazem sol, obra bilíngue lançada em 2022. Na mediação, Geni Núñez, psicóloga e escritora guarani, autora de Descolonizando Afetos, conduziu a conversa depois de ter estado no mesmo palco na véspera, como convidada.
Verenilde começou pela origem do romance, e para isso precisou voltar à própria trajetória. Disse que sempre foi uma ativista radical, sem meio-termo. Na pós-graduação, estudou como a imprensa hegemônica, ocidentalizada e colonizada, cobria os povos indígenas, e no doutorado, pela Universidade de Brasília, debruçou-se sobre o massacre ligado à Expedição Calleri. Em outubro de 1968, o padre italiano João Calleri liderou uma expedição para tentar contato com os Waimiri-Atroari, cujo território estava no caminho da BR-174, a rodovia que a ditadura militar abria entre Manaus e Boa Vista. Os integrantes da expedição foram mortos, e o episódio se tornou o prenúncio de uma violência muito maior contra o povo indígena durante a construção da estrada. Um relatório do Comitê Estadual da Verdade do Amazonas, enviado à Comissão Nacional da Verdade, aponta o desaparecimento de mais de 2 mil Waimiri-Atroari em cerca de dez anos. Verenilde relembrou esses horrores com um relato intenso e sem filtros, falando das mortes e do desespero dos povos atingidos. Contou que, para abrir a estrada, o governo enviava presidiários e pessoas de má conduta, e que a cobertura da imprensa nacional e internacional foi péssima, “de uma forma até perversa”.
Foi dessa memória que nasceu Um rio sem fim. Verenilde contou que teve uma espécie de epifania e decidiu escrever, porque, para ela, “a memória é a musa da narrativa”. O romance acompanha quatro meninas indígenas, Maria Assunção, Rosa Maria, Maria Índia e Maria Rita, educadas com rigidez numa missão salesiana chefiada por um bispo europeu, Dom Matias Lana. Ali, passam por um processo forçado de apagamento da própria identidade, simbolizado pelos novos nomes recebidos no batismo. Verenilde descreveu a catequização imposta às crianças, obrigadas a aprender a religião católica e entregues a famílias brancas, e lembrou que as personagens não são apenas personagens, mas remontam a histórias verdadeiras. O mundo pode destruir muita coisa, disse, mas a literatura cumpre o papel de guardar a memória. Fazer literatura, para ela, é recolher essas mulheres, com seus terrores, lembranças e amores, de histórias que ficaram soterradas num rio sem fim. Mais adiante, ao voltar a passagens do livro, admitiu que algumas foram duras de escrever, porque lembrar também dói.
Com Sony, Geni quis saber quem são as mulheres que fazem sol. A resposta passa pela cosmologia makuxi, em que o Sol, Wei, é uma entidade feminina, a Grande Avó. Os poemas do livro misturam português e makuxi e falam de ancestralidade, de corpo-território e da força das mulheres na luta pela terra e pela vida. Sony contou que quis trazer as vozes de mulheres silenciadas, das entidades e de todas as pessoas que estão na mesma frente de resistência, “para que a gente tire do pó o milagre da existência”. Em seguida, leu o poema “Nós mulheres”, de sua autoria:
nós mulheres domésticas
desaprendemos do nosso antigo nome
que antes dizia bicho rio sol beija-flor
pra virar água de batismo-catequese-castigo rima qualquer entre o som & o desprezo que não grita mais a palavra deus
Os versos ecoaram, quase como resposta, o que Verenilde havia contado sobre as meninas rebatizadas na missão. Geni amarrou as duas obras ao defini-las como uma “contranarrativa”, um “artesanato narrativo” que devolve aos povos indígenas o lugar de quem conta a própria história, depois de séculos em que foram apenas personagens da narrativa branca e ocidental. Sony seguiu nessa direção ao falar de Makunaima, figura da cosmologia de seu povo que o etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg registrou no início do século 20 e que, anos depois, Mário de Andrade transformou no “herói sem nenhum caráter” de Macunaíma. Para os Makuxi, explicou, ele é uma figura de ensinamento, o primeiro professor.
A conversa chegou, então, à língua. Geni lembrou a imposição histórica de falar português, de “falar cristão”, e destacou a presença das palavras indígenas na poesia de Sony, num gesto que chamou de “reflorestamento do imaginário”. Sony fez questão de corrigir uma ideia comum: a língua makuxi não está morta, está adormecida, e é preciso reencantá-la. Para Sony, a resistência passa sobretudo pelas mulheres, que preservam a língua nas músicas e nas histórias transmitidas de geração em geração.
O afeto é essa forma de resistência muito potente
Assista ao bate-papo completo abaixo:
Serviço
6.º Flitabira – Festival Literário Internacional de Itabira
Tema: “A Máquina do Mundo em Nós – 75 anos de Claro Enigma”
Data: 29 de outubro a 1º de novembro de 2026
Local: Teatro da FCCDA e entorno – Itabira (MG)
Programação: mesas literárias, palestras, encontros com escritores, lançamentos, Central de Autógrafos, Livraria do Flitabira, Flitabira da Gente, Flitabira nas Escolas, Prêmio de Redação e Desenho, exposição “Autorretratos de Drummond” e programação artística
Entrada: gratuita em todas as atividades
Acessibilidade: Libras e autodescrição
Transmissão: ao vivo pelo YouTube @flitabira
Patrocínio master: Vale, via Lei Rouanet – Ministério da Cultura
Apoio: Prefeitura de Itabira, Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade e Itaú