
Por Letícia Finamore
Encontro do escritor estreante Carlos Vinícius e o veterano italiano Roberto Parmeggiani debatem como a memória, a ancestralidade e o questionamento da “normalidade” reconfiguram os conceitos de inclusão e deficiências.
Dentre os tantos poderes que a literatura tem, um deles é a força de questionar certezas e reposicionar o olhar humano sobre as diferenças. No palco do Teatro da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA), a mesa “Outras Habilidades” materializou essa premissa em uma conversa entre o escritor e produtor cultural Carlos Vinícius e o autor e editor italiano Roberto Parmeggiani. O que estava previsto na programação como uma mediação de Carlos logo se inverteu em uma dinâmica conduzida por Parmeggiani, transformando o lançamento do livro “Bendito” em um ensaio sobre a infância, a memória e a urgência de questionar os padrões de normalidade impostos pela sociedade.
A Vale apresenta a sexta edição do Flitabira, via Lei Rouanet do Ministério da Cultura, com o apoio cultural da Prefeitura de Itabira, da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA) e do Itaú. Todas as atividades são gratuitas, acessíveis, transmitidas online pelo Youtube e estão alinhadas com os princípios do ESG (Ambiental, Social e Governança) e da ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável) da ONU (Organização das Nações Unidas).
A estreia de Carlos Vinícius na literatura traz o desafio de revisitar a infância sem cair nas armadilhas da perspectiva adulta, frequentemente enrijecida e distante da realidade. Durante a conversa, o autor destacou que escrever sobre os primeiros anos de vida exige um compromisso inegociável com a sinceridade. Carlos dispensa o formato documental de um relato biográfico estrito, optando por uma estrutura literária em que qualquer pessoa que ler vá se identificar. Ao refletir sobre a criação literária, Roberto Parmeggiani destacou que o ofício exige sinceridade e distancia-se de um relato biográfico estrito. “Escrever um livro é fazer literatura. E quando você faz literatura, você não escreve a história de alguém, você escreve uma história para que qualquer um possa se encontrar ali”, afirmou o italiano. Foi a partir dessa premissa que ele provocou Carlos Vinícius a compartilhar sua experiência com “Bendito”. Para o autor brasileiro, a crônica demanda um compromisso com a realidade, mas sem perder a capacidade surrealista de sonhar e de remodelar o cotidiano.
A discussão avançou para o núcleo do tema da mesa, questionando a ilusão de homogeneidade social e o modus operandi com o qual as deficiências são tratadas. Presidente da Associação Centro de Documentação Handicap de Bolonha, Roberto Parmeggiani carrega em sua bagagem um parecer incisivo sobre a inclusão, rejeitando a segregação literária e os rótulos limitantes. Para o italiano, a deficiência não define o limite, mas o que, de fato, restringe o desenvolvimento da potência de cada pessoa é o contexto. “As habilidades são um objeto neutro. E uma sociedade, um mundo cultural, uma família, uma escola desenvolvida e evoluída é aquela que permite a cada um achar o seu espaço e de se expressar ao 100%”, refletiu Parmeggiani, criticando o sistema atual que marginaliza e torna solitária a vivência de quem foge à norma.
Em tempos de dispersão digital, a escolha pelo livro físico como suporte para essas narrativas foi defendida como um ato de resistência. Carlos Vinícius ressaltou a potência do livro como um objeto imersivo e livre de distrações, capaz de gerar conexões genuínas e de tirar o indivíduo do próprio ego para compreender o entorno. Tal movimento de conexão também se estende ao conceito de ancestralidade debatido na mesa. Longe de ser apenas um resgate estático do passado, a ancestralidade foi apresentada sob a ótica do símbolo Sankofa, um símbolo originário dos povos da África Ocidental. Sua representação gráfica e feita por um pássaro com os pés e o corpo voltados para frente, mas com a cabeça virada para trás, carregando uma semente (representando o futuro) no bico. Seu nome significa “volte e pegue”, representando a ideia de que é preciso olhar para o passado para compreender o presente e construir o futuro. Não significa viver preso ao passado, mas sim resgatar a ancestralidade, as histórias, as lutas e os saberes dos que vieram antes para avançar com consciência. Simboliza a proteção do que está por vir através do aprendizado com a história – a sabedoria de buscar o que ficou para trás para conseguir caminhar em direção ao futuro. No contexto do encontro entre Carlos e Roberto, é a partir do reconhecimento do repertório deixado pelas gerações anteriores que se constrói um amanhã capaz de abraçar outras sensibilidades, realidades e maneiras de existir.
O encontro reafirmou o papel dos festivais literários como espaços de troca irrestrita e de fomento ao pensamento crítico. Isso porque a mesa provou que o ato de ler é, sobretudo, um exercício de empatia ativa. Carlos e Roberto mostraram ao público que quebrar a vitrine de um mundo supostamente homogêneo é o primeiro passo para enxergar a verdadeira, complexa e multifacetada amplitude da condição humana.
Confira a conversa na íntegra no YouTube do Flitabira:
Serviço
6.º Flitabira – Festival Literário Internacional de Itabira
Tema: “A Máquina do Mundo em Nós – 75 anos de Claro Enigma”
Data: 29 de outubro a 1º de novembro de 2026
Local: Teatro da FCCDA e entorno – Itabira (MG)
Programação: mesas literárias, palestras, encontros com escritores, lançamentos, Central de Autógrafos, Livraria do Flitabira, Flitabira da Gente, Flitabira nas Escolas, Prêmio de Redação e Desenho, exposição “Autorretratos de Drummond” e programação artística
Entrada: gratuita em todas as atividades
Acessibilidade: Libras e autodescrição
Transmissão: ao vivo pelo YouTube @flitabira
Patrocínio master: Vale, via Lei Rouanet – Ministério da Cultura
Apoio: Prefeitura de Itabira, Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade e Itaú