
Na mesa “Juventude Ferida”, o pesquisador falou da pluralidade dos jovens, de sua força política e das cobranças que pesam sobre eles, e defendeu que a dor também pode abrir caminhos
Por Anna Lara Resende
Quando pensa em juventude ferida, o pesquisador Hugo Monteiro Ferreira não pensa numa juventude só. Pensa em muitas, com desejos, medos e anseios diferentes, e na força que elas carregam justamente por causa das feridas que acumulam. Foi a partir dessa ideia que ele conduziu, na tarde deste sábado (31), a conversa com o escritor Marcelino Freire na mesa “Juventude Ferida”, no Teatro da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade. O encontro abriu o terceiro dia de programação nacional do 6º Festival Literário Internacional de Itabira, realizado de 29 de outubro a 1º.
A Vale apresenta a 6ª edição do Flitabira, via Lei Rouanet do Ministério da Cultura, com o apoio da Prefeitura de Itabira, da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade e do Itaú. Todas as atividades são gratuitas, acessíveis, transmitidas online pelo YouTube e estão alinhadas com os princípios do ESG (Ambiental, Social e Governança) e da ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável) da ONU (Organização das Nações Unidas). Os curadores desta edição são Sérgio Abranches e Calila das Mercês, ao lado do presidente do Festival, Afonso Borges.
Era a segunda participação de Hugo no festival. Na véspera, ele havia dividido o palco com o italiano Roberto Parmeggiani numa mesa sobre bullying e inclusão. Psicólogo, doutor em Educação e professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco, ele tem se dedicado a ouvir crianças, adolescentes e suas famílias. Em Agora o Meu Chão São as Nuvens (Autêntica), seu livro mais recente, investiga a violência intrafamiliar, a fragilidade dos laços entre pais e filhos e a influência do mundo digital na educação, a partir de casos de repercussão nacional e de depoimentos colhidos em suas pesquisas. O título, explicou no palco, vem da própria infância, quando se sentia sem chão, como se não tivesse pés, num lugar de insegurança e medo. No livro, a imagem ganha outro sentido: trocar o chão rígido das certezas, feito de disciplina e regras inflexíveis, por um chão de nuvens, mais instável, mas sustentado pelo afeto, pelo diálogo e pela coletividade. Na mediação, Marcelino Freire, escritor pernambucano vencedor do Prêmio Jabuti com Contos Negreiros, também conhece de perto as relações difíceis entre gerações. Seu livro mais recente, Escalavra, conta a história de um pai, de um filho e do silêncio que se instala entre os dois.
Marcelino abriu a conversa lembrando que as feridas também têm poder de transformação. Hugo acolheu a provocação e foi além. Para ele, as juventudes sempre estiveram no centro das mudanças, sobretudo no campo político. “As juventudes sempre estão envolvidas”, afirmou. Como exemplo, lembrou os rolezinhos, encontros que, entre o fim de 2013 e o início de 2014, levaram centenas de jovens das periferias de São Paulo aos shoppings da cidade. Combinados pelas redes sociais, esses encontros deram visibilidade a uma geração que não se via nos espaços de consumo e lazer, e a reação que provocaram, com liminares e presença policial, expôs o quanto o acesso a esses lugares ainda é desigual. Daí a ideia que Hugo defendeu ao longo de toda a tarde: as feridas não devem ser vistas apenas como algo trágico. Na visão dele, uma ferida anuncia uma perspectiva nova e pode se transformar num jeito diferente de pensar o mundo.
As feridas são potências
O presente também entrou na conversa. Marcelino citou a eleição presidencial deste mês, em que Lula, que havia terminado o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro, virou a disputa e foi reeleito. Para o mediador, a mobilização da juventude foi decisiva para essa virada. Hugo concordou e disse que essa força dos jovens está no centro do que tem pesquisado. Lembrou ainda que a presença das juventudes em lutas populares não é um fenômeno brasileiro. Na Sérvia, por exemplo, estudantes lideram desde o fim de 2024 os maiores protestos do país em décadas, iniciados depois do desabamento da marquise da estação de trem de Novi Sad, que deixou 16 mortos. Na França, jovens também têm ocupado as ruas em mobilizações recentes.
Não existe democracia sem olhar para as juventudes
A conversa então se aproximou do cotidiano de muitos adolescentes da plateia. Perguntado por Marcelino sobre o medo de não passar no Enem, Hugo relacionou esse temor a uma forma de hierarquia que a escola e a sociedade impõem desde cedo. O medo, ponderou, às vezes paralisa e às vezes orienta. O problema está no peso que se acumula sobre os jovens, tanto as cobranças da família quanto as que eles mesmos se impõem. Por isso, fez um apelo aos pais para que tornem esse caminho mais leve. Ninguém precisa chegar em primeiro lugar, disse, e o pódio é uma invenção do próprio sistema. Na plateia, chamava atenção a quantidade de adultos, muitos deles pais. Para eles, a mesa funcionou também como um lembrete de dores que, com o tempo, deixaram de reconhecer. Crescer costuma apagar a memória de como é sentir como criança ou se cobrar como um adolescente, e a conversa de Hugo e Marcelino foi, em boa parte, um convite a não esquecer.
Assista a conversa completa abaixo:
Serviço
6.º Flitabira – Festival Literário Internacional de Itabira
Tema: “A Máquina do Mundo em Nós – 75 anos de Claro Enigma”
Data: 29 de outubro a 1º de novembro de 2026
Local: Teatro da FCCDA e entorno – Itabira (MG)
Programação: mesas literárias, palestras, encontros com escritores, lançamentos, Central de Autógrafos, Livraria do Flitabira, Flitabira da Gente, Flitabira nas Escolas, Prêmio de Redação e Desenho, exposição “Autorretratos de Drummond” e programação artística
Entrada: gratuita em todas as atividades
Acessibilidade: Libras e autodescrição
Transmissão: ao vivo pelo YouTube @flitabira
Patrocínio master: Vale, via Lei Rouanet – Ministério da Cultura
Apoio: Prefeitura de Itabira, Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade e Itaú