Por Letícia Finamore

Dona Rosinha, Dona Tita e Dona Joana Zeferina foram homenageadas por seus familiares junto a Conceição Evaristo, Sérgio Abranches e Fabiano Piúba.

A memória familiar e coletiva ganhou contornos de solenidade no auditório da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA), palco de uma homenagem dedicada ao legado de três rainhas dos quilombos de Itabira. Como parte da programação da sexta edição do Festival Literário Internacional de Itabira – Flitabira, a cerimônia aconteceu no dia 30 de outubro e celebrou o direito à história e à literatura como instâncias fundamentais de cidadania, como defendeu Fabiano Piúba, Secretário de Formação, Livro e Leitura do Ministério da Cultura. No centro das homenagens estavam as patronas Dona Rosinha, Dona Tita e Dona Joana Zeferina, lideranças quilombolas recentemente falecidas que tiveram, na ancestralidade, um norte para a preservação da cultura negra.

A Vale apresenta a sexta edição do Flitabira, via Lei Rouanet do Ministério da Cultura, com o apoio cultural da Prefeitura de Itabira, da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA) e do Itaú. Todas as atividades são gratuitas, acessíveis, transmitidas online pelo Youtube e estão alinhadas com os princípios do ESG (Ambiental, Social e Governança) e da ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável) da ONU (Organização das Nações Unidas).

A abertura da atividade foi marcada pela reflexão sobre o cordão ancestral que liga o passado ao presente. Piúba evocou a presença espiritual das homenageadas ao relembrar a expansão do Flitabira para a comunidade do Quilombo Morro Santo Antônio. Citando a educadora cearense Luísa de Teodoro, Piúba destacou a sabedoria antiga que reside nos olhos dos recém-nascidos, reforçando a crença de que a ancestralidade nasce do encontro e do cuidado contínuo. Em suas palavras, o lançamento do livro de Dona Rosinha, “Memórias do Meu Quilombo”, representou a materialização de um sonho comunitário gestado com zelo e afeto.

O livro de Dona Rosinha

O livro nasceu de um encontro histórico, durante a 3ª edição do Flitabira, em novembro de 2023, quando Conceição Evaristo e Fabiano Piúba visitaram o Quilombo Morro Santo Antônio, a convite do Festival. Naquele dia, entre conversas, memórias e café compartilhado, Conceição ouviu atentamente as histórias de Dona Rosinha — lembranças guardadas por décadas, contadas com emoção, humor e resistência. Fabiano Piúba, sensibilizado pela potência da narrativa, destacou o compromisso do Ministério da Cultura com o direito à terra e à memória das comunidades quilombolas.

Desse encontro, surgiu a ideia de transformar as anotações e escritos de Dona Rosinha, guardados em cadernos de escola, em um livro. “Memórias do Meu Quilombo” foi gestado ao longo de dois anos, reunindo 16 capítulos de lembranças atravessadas por afetos, saudades, fome e racismo, mas também por beleza, solidariedade e fé. A obra dá voz a uma mulher que, mesmo diante de tantas adversidades, transformou a dor em palavra e a experiência individual em testemunho coletivo — um gesto de resistência e partilha.

No prefácio, Conceição Evaristo ressalta a grandeza do texto de Dona Rosinha: “Se pequeno é em sua materialidade, grande, imenso, é o seu significado.”

O legado das três matriarcas

O líder quilombola Vinícios Aparecido de Souza, filho de Dona Rosinha e sobrinho de Dona Tita, colocou a saudade em sua fala. Presidente da Associação Quilombola Morro Santo Antônio e realizador audiovisual, ele relembrou a resiliência de suas matriarcas, reconhecidas como as três “rainhas” dos quilombos itabiranos. Dona Tita, nascida em 1924, construiu uma vida inteira de trabalho no campo e de liderança comunitária, enquanto Dona Rosinha registrou a rotina local em cadernos que se converteram na obra “Memórias do Meu Quilombo”. Com a voz embargada, Vinícios reforçou que o destino dessas vivências pertence agora à imortalidade, perpetuadas pelo registro literário e pelos documentários que ele próprio ajuda a dirigir, levando o pensamento do quilombo ao campo audiovisual.

A reverência estendeu-se ao Quilombo do Capoeirão pelas palavras de Jonathan, que partilhou sua vivência ao lado de Dona Joana Zeferina. Ele descreveu uma matriarca sábia, cuja cozinha estava sempre aberta para oferecer alimento a quem precisasse. Dona Joana manteve ativa a feitura tradicional da farinha e dominava a medicina alternativa por meio de chás e dos cuidados com seu quintal. Jonathan lembrou que, em seus últimos seis anos, Dona Joana viveu com muita qualidade e encontrou uma nova forma de perpetuar saberes ao se integrar a um teatro de bonecos focado na história de seu território. A lembrança ilustrou uma mulher “que ensinou a comunidade a respeitar o silêncio para escutar o que realmente importa”, conta.

O ponto alto da homenagem pertenceu a Conceição Evaristo, voz importantíssima da literatura negra brasileira e que assina o prefácio do livro de Dona Rosinha. Com suas palavras, Conceição recusou o conceito clássico e europeu de herói para definir essas mulheres, falando sobre o reconhecimento do “heroísmo do cotidiano”. Apoiando-se no pensamento de intelectuais como Zilá Bernd e Beatriz Nascimento, Evaristo explicou que as matriarcas quilombolas construíram sua grandeza triturando as pedras do caminho diário. Também mencionou Zumbi dos Palmares e o classificou como um anti-herói marginalizado pelo discurso hegemônico, deslocando a força negra em um lugar de resistência constante, forjada na luta cotidiana pela sobrevivência e não em batalhas épicas oficiais.

A escritora recorreu à força das águas para traduzir a experiência da mulher negra no Brasil. Lembrando o orixá Oxum e o provérbio “as águas passam e as pedras ficam”, Evaristo destacou como as lágrimas de gerações de mulheres fragilizadas pela estrutura social nunca as impediram de lutar. Pelo contrário, as dores foram o substrato para que elas construíssem uma verdadeira “Pasárgada” – um território seguro e utópico para seus descendentes. A literatura e a intelectualidade negra contemporânea nascem exatamente desse solo fértil, celebrando heroínas anônimas que mantiveram seu povo de pé na referida “invisibilidade” de seus afazeres.

A solenidade foi encerrada com o auditório inteiro de pé, em uma salva de palmas solicitada por Evaristo para homenagear as matriarcas. O aplauso uníssono confirmou que o silenciamento histórico foi rompido. Dona Rosinha, Dona Tita e Dona Joana Zeferina provaram que a memória, quando registrada (neste caso, em palavras), transforma-se em um instrumento para lá de definitivo de cidadania e preservação da vida.

Assista a cerimônia completa no YouTube do Flitabira:

Serviço

6.º Flitabira – Festival Literário Internacional de Itabira

Tema: “A Máquina do Mundo em Nós – 75 anos de Claro Enigma”
Data: 29 de outubro a 1º de novembro de 2026
Local: Teatro da FCCDA e entorno – Itabira (MG)
Programação: mesas literárias, palestras, encontros com escritores, lançamentos, Central de Autógrafos, Livraria do Flitabira, Flitabira da Gente, Flitabira nas Escolas, Prêmio de Redação e Desenho, exposição “Autorretratos de Drummond” e programação artística
Entrada: gratuita em todas as atividades
Acessibilidade: Libras e autodescrição
Transmissão: ao vivo pelo YouTube @‌flitabira
Patrocínio master: Vale, via Lei Rouanet – Ministério da Cultura
Apoio: Prefeitura de Itabira, Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade e Itaú