Mediada por Natália Alves, a mesa “Voz, Corpo e Palavra” juntou leitura, canto e reflexão sobre o lugar da poesia na vida e na obra de dois dos principais nomes da criação contemporânea

 

Por Anna Lara Resende

“Eu me defino como poeta, é o primeiro que sou.” A frase de Leda Maria Martins, uma das personalidades homenageadas do 6º Festival Literário Internacional de Itabira (Flitabira), deu o tom da mesa “Voz, Corpo e Palavra”, realizada na noite desta sexta-feira (30) no Teatro da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade. Ao lado do poeta e performer Ricardo Aleixo, e com mediação da pesquisadora e artista Natália Alves, a ensaísta, reconhecida por conceitos que circulam no Brasil e no exterior, apresentou a poesia como a origem de tudo o que produz. Ao longo de uma hora, os dois refletiram sobre como nasce um poema, o que ele exige de quem escreve e por que a palavra poética não cabe apenas no papel, já que vem também da voz e do corpo. O encontro integrou o segundo dia de programação nacional do festival, que acontece de 29 de outubro a 1º de novembro na cidade natal de Carlos Drummond de Andrade.

A Vale apresenta a 6ª edição do Flitabira, via Lei Rouanet do Ministério da Cultura, com o apoio da Prefeitura de Itabira, da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade e do Itaú. Todas as atividades são gratuitas, acessíveis, transmitidas online pelo YouTube e estão alinhadas com os princípios do ESG (Ambiental, Social e Governança) e da ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável) da ONU (Organização das Nações Unidas). Os curadores desta edição são Sérgio Abranches e Calila das Mercês, ao lado do presidente do Festival, Afonso Borges.

A mesa reuniu duas trajetórias que há décadas se cruzam no território da palavra. Poeta, dramaturga, ensaísta e professora emérita da Universidade Federal de Minas Gerais, Leda Maria Martins é autora de conceitos como o de tempo espiralar e o de oralitura, e lançou recentemente A Fina Lâmina da Palavra, pela Cobogó. Ricardo Aleixo, por sua vez, nasceu em Belo Horizonte, ocupa uma cadeira na Academia Mineira de Letras e construiu, como poeta, performer, músico e artista multimídia, uma obra que transita há mais de trinta anos entre o livro, o palco e o som. Conduzindo a conversa estava Natália Alves, pesquisadora e artista, doutora em Planejamento Urbano e Regional pela UFRJ, cuja prática também passa pela performance, pela arte sonora e pelas poéticas da linguagem.

Antes mesmo da primeira pergunta, Natália preferiu que os próprios poemas apresentassem os convidados. Leu, primeiro, “Poiēsis 3”, de Leda, publicado em 2021 na revista piauí, e, na sequência, “Sobre escrever”, de Aleixo. Depois, ao apresentar a convidada, destacou a pluralidade de uma obra que passa pela poesia, pelo teatro, pelo ensaio e pela produção acadêmica, lembrando que, apesar de tantas frentes, Leda se define sobretudo como poeta. Foi justamente daí que partiu a pergunta que abriu a conversa: qual é o lugar do poema numa obra tão diversa, e de que maneira ele dialoga com as demais formas de criação?

Para responder, Leda escolheu um caminho mais longo, e bonito. Começou agradecendo por estar em Itabira, cidade que visitava pela primeira vez e que, até então, conhecia apenas pelos versos de Drummond. Contou que passou a viagem pensando no poeta e em “A Máquina do Mundo”, poema que considera uma espécie de bússola em sua obra, e no sentimento do mundo que ele soube transformar em poesia. A partir de Drummond, voltou-se para a própria trajetória e reafirmou que é, antes de tudo, poeta. Embora reconheça que seus ensaios tenham mais visibilidade e alcancem mais leitores, explicou que a poesia a habita de muitas maneiras, inclusive dentro dos textos teóricos. “Em toda a minha ensaística, nela o poético também habita”, disse. Segundo ela, até o modo como fala carrega algo de poema, quase com naturalidade.

Quando a mesma pergunta chegou a Ricardo Aleixo, ele preferiu começar por uma homenagem. Amigos de longa data, os dois deixaram transparecer no palco uma admiração mútua, e foi para Leda que Aleixo quis “cantar” um poema escrito durante a Ocupação Leda Maria Martins, realizada pelo Itaú Cultural, em São Paulo, para a qual ela convidou amigos a participar. Aplaudido pela plateia, ele então retomou a pergunta com outra, quase retórica: 

 

O que é a palavra poética senão a verdade mais profunda do ser? 

 

Para Aleixo, estar ali, reunido pela força da poesia, era ao mesmo tempo motivo de alegria e a própria matéria do seu cotidiano, já que pensa nela todos os dias. Foi a poesia, contou, que lhe abriu caminho para tantos outros campos, da filosofia à história, e que o tornou multiartista. Por isso, mais do que um ofício, ele a entende como uma forma de ocupar o mundo e de existir nele.

Quanto ao processo de criação, Aleixo admitiu que não segue um método definido, porque o poema pode começar de qualquer lugar. “Muitas vezes é uma textura, uma cor, um som”, explicou. Como exemplo, recordou o tempo em que morou em Nova York, quando um trem atravessava a madrugada fazendo muito barulho. É desse tipo de faísca, seja um incômodo, um ruído ou um detalhe banal do dia a dia, que um verso pode nascer. Leda concordou que a criação não obedece a padrões e, nesse ponto, voltou ao poema lido no início da noite, que definiu como “bem espiralar”. Ela o escreveu, lembrou, na mesma época em que trabalhava em Afrografias da Memória e aprofundava a reflexão que a tornaria uma das pensadoras mais influentes do país: a do tempo espiralar.

O conceito ajuda a entender o que ela quis dizer. Na cultura ocidental, o tempo costuma ser pensado como uma linha reta, que avança do passado para o futuro e deixa para trás o que já passou. Leda propõe outra imagem, inspirada nas tradições afro-brasileiras que estuda, como o Congado: a de um tempo que se move em curvas, como uma espiral. Nele, o que passou não desaparece. Volta, retorna em outro ponto, e a cada retorno já não é exatamente o mesmo. Por isso os ancestrais seguem presentes, e a memória é vivida no corpo, nos cantos e nos rituais, e não apenas guardada como lembrança. Dizer que um poema é “bem espiralar” é, portanto, dizer que ele se organiza dessa maneira. Em vez de seguir em linha reta do primeiro ao último verso, ele gira sobre si mesmo, retoma imagens e palavras, deixa que passado e presente convivam e faz o leitor voltar, a cada leitura, a um lugar que já parece outro.

Daí a conversa chegou, naturalmente, ao coração do tema da mesa. Leda observou que o fazer poético costuma ser associado à escrita, quando, para ela, a poesia é também corpo e voz, palavra dita tanto quanto palavra escrita, como uma extensão do próprio corpo. É isso, afirmou, que a constitui como ser humano, e assim retomou a ideia com que havia aberto a noite: 

 

Tudo que há em mim é balizado por ser poeta (…) da letra escrita e do que na poesia vozeia

 

Aleixo seguiu na mesma direção e resumiu o pensamento numa frase curta: “Voz é corpo”. Isso porque, explicou, a voz acompanha cada movimento e cada gesto, e em todas as culturas do mundo a poesia nasceu da voz, do corpo e de seus códigos. “O corpo é o primeiro espaço de quem performa”, completou, e é justamente da soma desses elementos que surge a poesia capaz de ocupar o espaço e instaurar mundos. Coube a Leda amarrar o raciocínio. Para ela, a voz encontra corpo na escrita, de modo que a letra grafada sempre guardará a lembrança de sua vocalidade.